segunda-feira, 21 de março de 2022

TUA CABEÇA É O TEU JUIZ

 

(RÔ Campos)


Depois de uns  goles de cachaça

Eu pisei  no calo da mulher amada

E logo após  pedi perdão a ela

Mas ela, um poço de mágoa 

Me disse: a fonte secou. 


Entrei com  ação na primeira instância,

Mas a juíza não me deu ganho  de causa.


Inconformado com a decisão,  Apelei ao tribunal dos arrependidos,

Mas o tribunal manteve a condenação.


O jeito foi  sair de bar em bar

Me afogando em várias doses de cachaça

Para a minha pena  esquecer. 


Quando acordei,  estava  de joelho aos pés do altar na igrejinha do Pobre Diabo.

Aproveitando o ensejo,  supliquei  a Santo Antônio,  

E ele então sentenciou:

Nesse caso,  não tenho jurisdição. 

Dirija sua apelação a Deus.


Pedi a Deus que me inocentasse 

E Deus  solenemente me respondeu:


Eu te dei o livre arbítrio. 

Neste caso,  perdoar,  nem Deus. 

Tua  cabeça é  o teu juiz. 

Vai e cumpre a tua  pena. 

O azar é só teu.

domingo, 20 de março de 2022

COMO UM FLASH

 

(RÔ Campos)


Eu queria entender

Por que,  meu Deus!

Os  dias passam tão ligeiro.


Parece ainda que foi ontem

Que conheci meu amor primeiro -

Ele,  que agora é  uma estrela.


Às  vezes sonho com tanta gente  linda,

Que conheci nas andanças pela vida.

Parece que estou vivendo tudo outra vez. 


E vejo aquele amor de tantos carnavais.

Nós  dois,  juntos,  brincando  até o sol raiar:

"Tanto riso,  ó quanta alegria!".


E o outro, que me mandava flores,

E hoje já não sei mais nem 

quem ele é. 


E me visita  a memória o menino que sonhava,

O outro que trabalhava e tinha muitos planos,

O homem que era doutor das leis,

O outro, perseverante,  que se tornou juiz.


E também  aquele com quem me juntei, um dia,

Que já foi tanto e hoje é  ninguém. 

O chefe querido,  que muito me ensinou,

A quem tive e tenho como segundo pai.

Meu avô,  artista, palhaço e ator.

O homem que me gerou,  o maior de todos,  meu pai. 


Estou no presente e, de repente, 

Me vejo no passado,

Nos meus dias de criança,

Cheia de sonhos que teimavam  em minha mente.


Muitas coisas se perderam no tempo. 

A gente vai crescendo e tudo vai ficando para trás.

Só o que não passa, como disse meu amigo Jefferson Valente 

É  a saudade que fica catucando  a gente.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

DEPRÊ, NÃO!!!

 

(RÔ Campos)


Quando o monstro me acenava com as mãos cheias de garras

Eu não sabia o que fazer

Ele era medonho  de feio

E vinha pra me destruir. 


O monstro dia a dia me possuía

Quando uma força misteriosa surgiu do nada

E me arrancou   do extremo cansaço

Que estava a me sugar  a vida. 


Para vencer o monstro

Não guerreei com ele

Vi uma luz no fim do túnel

E levantei a bandeira  da paz. 


Hoje,  o monstro ainda me assedia 

Não se pode baixar a guarda

Ele que lute!

Da vida nada nem ninguém me tira mais.

domingo, 20 de fevereiro de 2022

PELOS CAMINHOS DESTA VIDA

 

(RÔ Campos)


Que eu siga pelos caminhos que me levem

Sempre vestida de minhas insignificâncias,

Mas livre de  algema  alguma. 


Toda forma de opressão deprime,

Faz sucumbir qualquer força animadora.

É  prisão que cega até pela luz do sol vista por uma fresta.


Pavimentei  cada palmo do chão por onde andei,

Para chegar até aqui e  seguir adiante, 

Enquanto essa estrada não tiver fim. 


Meus ombros não suportam o peso da carga que não pedi, 

Mas a minha escolha a colocou em minhas mãos. 

Julgava que fosse leve, 

Até que,  um dia,  me vi cansada do seu peso insustentável. 


De mim me quiseram assenhorar,

Mas eu sou o meu senhor.   


Agora,  eu sei e digo: quantas vezes o que hoje  nos traz felicidade,  amanhã será a causa de nossas agruras.

O mundo é  dualidade.  Ponto. 

E, assim,  hoje a tristeza se senta e a alegria  se levanta. 

Amanhã,  quem se senta é  a alegria, e a tristeza nos assusta.


Portanto,  tenho dito,  não se engane.

Todos temos dentro de nós um anjo e  um demônio. 

Às  vezes,  o demônio dorme e o anjo está acordado.

Outras vezes,  o anjo se descuida,  e dorme. E o demônio nos assedia em plena luz do dia.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

SÓFIA

(RÔ Campos)


O que é o meu saber

Senão saber que nada sei.

E quando eu chego a pensar

Que de alguma coisa eu sei

Descubro saber menos

Do que tudo aquilo 

Que eu penso que sei.


Assim é o meu saber

Ou aquilo que consiste em pensar que sei:

Todo dia desaprendo

E de novo procuro aprender

Que nesta vida nada se sabe

A não ser que todo dia

Morre para depois renascer.


E quando o dia acaba de morrer

Vem o meu saber e me diz

Que nada dura para sempre

E que tudo muda depois que eu me desnudo

Que tudo,  absolutamente tudo,  é relativo

E nada, nada, nada é  definitivo.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

AMOR VAZIO


(RÔ Campos)


Cadê o tesão que estava aqui?

Ontem à noite ao chegar em casa tarde, me disse que sua vontade era ficar por aí.

Comprei uma lingerie  vermelha linda,  mas ele nem olhou pra mim. 

Esqueci que ontem fizemos aniversário de 30 anos de casados. 

Não sabemos mais o que é  um beijo,  dormir de conchinha, abraçados.  É cada qual para o seu lado.

Há  algum tempo dormimos em quartos separados, 

Mas, juntos,   ainda vamos ao supermercado...

Já perdi a conta do tempo que não vamos mais ao cinema,  a shows, nem viajamos juntos, como quando vivíamos enamorados.

Cada qual faz seu programa separado.  

Mas, programa a dois - isto é  coisa do passado.  

E, assim,  vamos vivendo...Lado a lado.

domingo, 26 de dezembro de 2021

ESTÁ FALTANDO MUITA GENTE AQUI


(RÔ Campos)


Está faltando muita gente aqui

Todo o mundo tenta se distrair

Mas essa dor tá doendo demais

Já não dá mais pra insistir nesse disfarce.


Há  dois anos tudo  era diferente 

Ninguém imaginava que tudo ia mudar

Já não temos tempo de cuidar

Nem  podemos mais dizer adeus. 


O que houve,  meu Deus,  o que aconteceu?

Por que tudo mudou assim tão repente?

Todo dia meus filhos me diziam

Hoje foi fulano quem partiu.


Agora não consigo nem chorar 

Pois meu coração parece que secou

Foram dias  tão cruéis

Que já não sabia mais o que era paz. 


Mas está faltando muita gente aqui

Muitas mesas  estão caladas , vazias

As festas já não são como eram antes

Acabou-se a fantasia. 


Parecia o fim do mundo

Era  gente sucumbindo na entrada dos hospitais,  pedindo socorro

Gente batendo nas portas, desesperada,

Mas as portas não se abriam.


Para "melhor ilustrar" essa tragédia

Pessoas morreram asfixiadas, sem oxigênio

Na capital do pulmão do mundo -  quanta ironia!!!!

Vítimas do crime e do descaso do estado brasileiro. 


Está faltando muita gente aqui

Partiram o pai,  a mãe, o filho e a filha,  o irmão e a irmã, o neto e a neta, o avô  e a avó. 

Partiram  também  o genro,  a nora,  o sogro,  a sogra, o padrasto e a madastra, o enteado e a enteada, o cunhado e a cunhada

E assim também o tio e a tia,  o primo e a prima,  o amigo e a amiga,  os parentes mais próximos e os distantes,  os parentes dos amigos e  das amigas

E ainda  o vizinho e a vizinha,  o conhecido e a conhecida,  ex-amores, o médico e a médica,  o enfermeiro e a enfermeira,  muita gente na chamada linha de frente. 

Muitos anônimos também  se foram,   enterrados  em imensas  valas.

Foram-se professores,  policiais,  trabalhadores em geral,  escritores,  poetas, músicos,  cantores e cantoras,  compositores e compositoras, atores e atrizes,  negacionistas,  crentes, cristãos,  ateus, padres.

Foram-se além de tudo pobres desgraçados.


Está faltando muita gente aqui

É porque muitos se vão  primeiro

Mas assim como o sol e a lua vão e voltam todos os dias

A vida, essa coisa rara, também segue em frente... 


E provado está, como disse Volia,

Que "a vida não é  apenas um passeio  no parque"

Cabe a cada um de nós seguir

Mesmo que no meio do caminho haja uma ou muitas pedras...