quarta-feira, 10 de novembro de 2021

DO FUNDO DO NOSSO QUINTAL


(RÔ Campos)


Meu Deus! dai-me forças

Porque vontade eu tenho muita 

De morar no templo que é  o samba.


Quero orar ao pé do altar

Praticar a minha fé

A fé na vida

A fé no samba

E curar minhas feridas. 


Olho pro sambista com o dedo na viola 

E logo me ponho a sorrir.


O homem marcando o compasso no surdo

E meu coração saltitando, querendo falar, correr mundo. 


O tamborim no contratempo

Me fazendo lembrar que tudo é  possível,

Exceto correr contra o tempo. 


E tem  também o cavaco, tão pequeno

Soando alto, parece dizer

Que as rodas de samba são como oração.


Meu Deus! dai-me forças

Porque vontade eu tenho muita

De morar no  templo que é  o  samba.


Tem  também tantan, agogô, pandeiro e reco-reco

Repique pelas  mãos do Bira

Tem ainda o banjo  trazido  por Almir Guineto.

Agora estrelas que voltaram para  a sua constelação

Vejo tudo à noite quando ergo os olhos para o céu 

Do Fundo do nosso Quintal.

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

DIÁLOGO COM OS ASTROS


(RÔ Campos)


Eu, na solidão do meu quarto,

Mas nunca estou  sozinha.

Tenho muitas companhias,

Sejam os dias quentes,

Sejam as noites frias. 


Há  dias em que as ruas  estão cheias, 

E eu, em meio a tanta gente, 

Sinto como se estivesse sozinha. 

Os homens vêm  e vão

Sobem calçadas,  mudam de lugar,

Baixam a cabeça,  olham para o céu

Mas não veem  os que estão ao léu.


Há noites em que as ruas estão vazias.

Eu saio por aí  a catar estrelas,

Procuro um banco  pra sentar em uma praça  qualquer,

Quero conversar com a lua.

Vejo muitas imagens ao redor dela:

Às  vezes são monstros, 

Outras  tantas vezes são bichos,  são anjos.


Aí  então eu me sinto aliviada. 

Sei que não estou sozinha neste mundo.

Um mundo infinito,  de infinitas possibilidades. 


Prossigo a catar estrelas para conversar com elas. 

Ao piscar,  elas me dizem que Deus  vive nos olhos de quem vê a beleza.

A beleza que está no amor entre os homens, 

E não naquilo  que os divide.


E as estrelas me dizem,  ainda:

Deixa disso. Ninguém  é  dono da verdade.

Nem nós, que brilhamos na escuridão. 

Há  dias em que as estrelas caem.

Mas até quando caem, dão seu espetáculo. 


E, ali,   vendo muitas estrelas brilhando no céu,  e algumas outras caindo,  um anjo parecia me sussurrar:

Embora candentes, estrelas cadentes são.

Porque tudo cai. Até a soberba.

Mas nem tudo o que cai é  só tristeza. 

As lágrimas que caem de teus olhos, antes,  já lavaram a tua alma. 


Não há solidão na solitude de um quarto vazio,

Tampouco em um céu  sem lua, sem sol,  sem estrelas. 

Apenas eles estão ofuscados pelas nuvens escuras,  passageiras.

E, assim como as nuvens que passam, tudo absolutamente  um dia há de passar...

terça-feira, 26 de outubro de 2021

BREVIDADE


(RÔ Campos)


A vida é tão breve

A vida é tão curta

Mas ainda são muitos

Os homens que surtam

Pobres diabos!

Terráqueos!

No mundo de Deus.


A vida é tão breve

A vida é tão curta

Num segundo, apenas

Tudo vira pó, poeira:

Dinheiro, orgulho, preconceito

Sem dó, nem ré, nem mi

Nem fá, nem sol, nem lá...

Nem si.


A vida é tão breve

A vida é tão curta

É Deus e  sua batuta

É Gaia quem toca

Quem o canto entoa

É o sol radiante que tilinta

É o vento que sibila

É a chuva que baila enquanto cai

São os leitos dos rios

São os mares, rasos, profundos

Onde as águas da chuva se deitam

São os pássaros que voam

Que o cantar ecoam

Orquestra da vida!

Pulsar fugaz!

O homem, obra da criação

Ou, quem sabe

Do Nada

Desatento...Desentoa

Desafina...

*escrito em outubro de 2013

POR QUE TINHA DE SER ASSIM?

(RÔ Campos)


Quase quatro anos···

É muito tempo·

Um tempo que não tive mais·

E nunca mais te vi·

A não ser perambulando

Pelas veias cansadas do meu coração·


Hoje de manhã lembrei de ti·

Não pude me conter

E chorei por nós·

Por que tinha de ser assim?

Tantos sonhos se perderem, 

E eu me perder de ti?


* lembrança do Face de  25 de outubro de 2015.

CADA UM DE NÓS É O QUE É

Quantas vezes deixamos de viver e passamos a sobreviver apenas com as  migalhas que nos oferecem, como se mendigos fôssemos!?  

Depois, muito tempo depois que os melhores dias de nossas vidas já se foram, é que vamos nos deparar com a triste realidade do quanto fomos ingênuos e  cegos, ou melhor, burros; isso mesmo, literalmente burros. 

Aí, então, aprendemos que cada pessoa é o seu próprio universo. Cada um tem o seu próprio sol, a sua própria lua. E não precisamos nem do sol, nem da lua do outro, porque temos os nossos, que nos aquece e ilumina. 

*escrito em 26.10.2013

QUEM QUER DÁ. QUEM QUER, FAZ

(RÔ Campos)

Pare de viver a vida do outro...e viva a sua. 

Pare de pegar no pé do outro...e cuide do seu próprio pé. 

Pare de insistir em  botar os seus sonhos na cabeça do outro...e deixe-o sonhar os seus próprios sonhos. 

Pare de esperar pelo o que você já viu que não vai chegar nunca. 

Pare de reclamar por que o outro não lhe dá o que você quer receber e nem faz aquilo que é de sua vontade.

Porque cobranças são para escritórios jurídicos. 

Na vida, quem quer, dá. Quem quer, faz. 

ESCOMBROS DA MEMÓRIA

(RÔ Campos)

Nada mais do que ele te faz causa-te tristeza ou dor? 

Nada do que ele te diz te ajuda a ser feliz ou faz reacender a luz da esperança? 

As promessas dele agora são vãs aos teus olhos que se tornaram incrédulos? 

Se me disseres sim, eu te direi: Então, hoje ele já não é mais nada. É ninguém.  

Andaste tão ligeiro e resoluta para o futuro, sem deixar nenhum sinal, nenhum pista, que ele se perdeu num passado remoto. 

O que antes era amor e morava no teu coração, hoje vive sob os escombros da memória. 

*escrito em 26.10.2013