quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

SÓFIA

(RÔ Campos)


O que é o meu saber

Senão saber que nada sei.

E quando eu chego a pensar

Que de alguma coisa eu sei

Descubro saber menos

Do que tudo aquilo 

Que eu penso que sei.


Assim é o meu saber

Ou aquilo que consiste em pensar que sei:

Todo dia desaprendo

E de novo procuro aprender

Que nesta vida nada se sabe

A não ser que todo dia

Morre para depois renascer.


E quando o dia acaba de morrer

Vem o meu saber e me diz

Que nada dura para sempre

E que tudo muda depois que eu me desnudo

Que tudo,  absolutamente tudo,  é relativo

E nada, nada, nada é  definitivo.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

AMOR VAZIO


(RÔ Campos)


Cadê o tesão que estava aqui?

Ontem à noite ao chegar em casa tarde, me disse que sua vontade era ficar por aí.

Comprei uma lingerie  vermelha linda,  mas ele nem olhou pra mim. 

Esqueci que ontem fizemos aniversário de 30 anos de casados. 

Não sabemos mais o que é  um beijo,  dormir de conchinha, abraçados.  É cada qual para o seu lado.

Há  algum tempo dormimos em quartos separados, 

Mas, juntos,   ainda vamos ao supermercado...

Já perdi a conta do tempo que não vamos mais ao cinema,  a shows, nem viajamos juntos, como quando vivíamos enamorados.

Cada qual faz seu programa separado.  

Mas, programa a dois - isto é  coisa do passado.  

E, assim,  vamos vivendo...Lado a lado.

domingo, 26 de dezembro de 2021

ESTÁ FALTANDO MUITA GENTE AQUI


(RÔ Campos)


Está faltando muita gente aqui

Todo o mundo tenta se distrair

Mas essa dor tá doendo demais

Já não dá mais pra insistir nesse disfarce.


Há  dois anos tudo  era diferente 

Ninguém imaginava que tudo ia mudar

Já não temos tempo de cuidar

Nem  podemos mais dizer adeus. 


O que houve,  meu Deus,  o que aconteceu?

Por que tudo mudou assim tão repente?

Todo dia meus filhos me diziam

Hoje foi fulano quem partiu.


Agora não consigo nem chorar 

Pois meu coração parece que secou

Foram dias  tão cruéis

Que já não sabia mais o que era paz. 


Mas está faltando muita gente aqui

Muitas mesas  estão caladas , vazias

As festas já não são como eram antes

Acabou-se a fantasia. 


Parecia o fim do mundo

Era  gente sucumbindo na entrada dos hospitais,  pedindo socorro

Gente batendo nas portas, desesperada,

Mas as portas não se abriam.


Para "melhor ilustrar" essa tragédia

Pessoas morreram asfixiadas, sem oxigênio

Na capital do pulmão do mundo -  quanta ironia!!!!

Vítimas do crime e do descaso do estado brasileiro. 


Está faltando muita gente aqui

Partiram o pai,  a mãe, o filho e a filha,  o irmão e a irmã, o neto e a neta, o avô  e a avó. 

Partiram  também  o genro,  a nora,  o sogro,  a sogra, o padrasto e a madastra, o enteado e a enteada, o cunhado e a cunhada

E assim também o tio e a tia,  o primo e a prima,  o amigo e a amiga,  os parentes mais próximos e os distantes,  os parentes dos amigos e  das amigas

E ainda  o vizinho e a vizinha,  o conhecido e a conhecida,  ex-amores, o médico e a médica,  o enfermeiro e a enfermeira,  muita gente na chamada linha de frente. 

Muitos anônimos também  se foram,   enterrados  em imensas  valas.

Foram-se professores,  policiais,  trabalhadores em geral,  escritores,  poetas, músicos,  cantores e cantoras,  compositores e compositoras, atores e atrizes,  negacionistas,  crentes, cristãos,  ateus, padres.

Foram-se além de tudo pobres desgraçados.


Está faltando muita gente aqui

É porque muitos se vão  primeiro

Mas assim como o sol e a lua vão e voltam todos os dias

A vida, essa coisa rara, também segue em frente... 


E provado está, como disse Volia,

Que "a vida não é  apenas um passeio  no parque"

Cabe a cada um de nós seguir

Mesmo que no meio do caminho haja uma ou muitas pedras...

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

SEDE DE VIVER


(RÔ Campos)

Seremos felizes?
Só o tempo  irá  dizer
Daquelas horas livres
Que, juntos,  a gente viver. 

Não quero  que sejas a minha  prisão
Liberdade antes que seja tarde
A vida não ancora em um porto solidão
Do meu  coração guardo comigo a chave. 

Queres me pôr em um altar sacrossanto
Mas não demora vais saber
Nunca fui nenhuma santa
Tenho muita sede de viver.

NÃO SE VISTA DE TRISTEZA


(RÔ Campos)


Dê  sempre tempo ao tempo

Deixe  o tempo passar

Só não deixe de viver plenamente. 


Viva a cada sol,  a cada lua

Com a alma despida,  nua

Não se vista de tristeza. 


Se o amor bater na tua porta

Deixe o amor entrar

Mas não se feche  se o amor sair

Tenho dito: quem ama também deixa ir embora.

O QUE VOU FAZER SEM TEU AMOR?

(RÔ Campos)


Você chegou devagar

E eu nem percebi

Quando dei por mim 

Você já estava aqui.


Você chegou devagar

Com seu jeito manso

Um olhar tão doce

Que me fez sonhar.


Você chegou devagar

E eu nem percebi

Sem saber por que nem quando

Eu me apaixonei.


Você chegou devagar

E eu nem percebi

Que meu amor era teu

E que no amor eu me perdi.


Você chegou devagar

E eu  nem percebi

Nos planos que eu fiz

Nos traçados eu fui feliz.


Você chegou devagar

E eu acreditei

Que meu amor era teu

E teu amor era só meu.


Você chegou devagar

E eu nem percebi

Agora vem você e me diz

Que vai partir...


E eu pergunto a você

Meu amor

O que vou fazer, com esse amor

Que ainda é teu.


E eu pergunto a você

Meu amor

Como vou viver sem meu coração

Se ele eu te dei.


*Escrito em meados  de 2011 

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

DO FUNDO DO NOSSO QUINTAL


(RÔ Campos)


Meu Deus! dai-me forças

Porque vontade eu tenho muita 

De morar no templo que é  o samba.


Quero orar ao pé do altar

Praticar a minha fé

A fé na vida

A fé no samba

E curar minhas feridas. 


Olho pro sambista com o dedo na viola 

E logo me ponho a sorrir.


O homem marcando o compasso no surdo

E meu coração saltitando, querendo falar, correr mundo. 


O tamborim no contratempo

Me fazendo lembrar que tudo é  possível,

Exceto correr contra o tempo. 


E tem  também o cavaco, tão pequeno

Soando alto, parece dizer

Que as rodas de samba são como oração.


Meu Deus! dai-me forças

Porque vontade eu tenho muita

De morar no  templo que é  o  samba.


Tem  também tantan, agogô, pandeiro e reco-reco

Repique pelas  mãos do Bira

Tem ainda o banjo  trazido  por Almir Guineto.

Agora estrelas que voltaram para  a sua constelação

Vejo tudo à noite quando ergo os olhos para o céu 

Do Fundo do nosso Quintal.