domingo, 24 de outubro de 2021

AMIGO DE BAR


(RÔ Campos)


Temos vários tipos de amigos,

Mas aqui,  agora,  quero falar um pouco do amigo de bar. 


Amigo de bar é  aquele que,  de repente, surge do nada.

Muitas vezes pensamos  até que já conhecemos a praga. 

Um gole aqui,  outro acolá 

Te abraça,  te beija,  faz festa, te faz  até sonhar. 


Amigo de bar é  pra sempre.

Ninguém visita um ao outro,

Ninguém sabe da vida de cada um.

Mas o "pra sempre" não passa  da mesa  de bar. 


Amigo de bar topa qualquer parada,

Principalmente quando o assunto é  uma gelada.


Amigo de bar nem se toca  se entrar  contigo em alguma fria,

E vai contigo em qualquer quebrada. 


Amigo de bar  te dá  carona,

E nunca reclama de nada.

Nem mesmo quando esqueces  o caminho, a entrada da rua, 

Fazendo com que ele,  já tonto,  dê  muitas voltas,

Ou quando,  ao saíres do carro,  cais na calçada embriagado,

(Não sem antes deixares tua marca registrada no banco do carona ou no assoalho do carro). 


Amigo de bar nunca te cobra nada. 

E até paga a conta sozinho,  quando é abonado,

E tu não passas de um pobre pés-rapados,

Ou se já és acostumado na velha artimanha   de se fazer de leso e no "se colar, colou" para saíres  ileso, sem meter a mão no bolso, geralmente  furado.


Amigo de bar nunca  te enche o saco.

Se é  pobre,   dá  um jeito e logo fica rico, mesmo que fique pendurado.

Se é  rico,  adora  mostrar a carteira cheia, e não se faz de rogado.


Amigo de bar, seja rico ou seja pobre,

Só quer saber de esquecer as agruras da vida, 

As rasteiras que lhe deram, 

Os chifres que lhe puseram,

Ouvir Garçom, de Reginaldo Rossi.


Se o Flamengo ganhou ou perdeu, 

O amigo de bar vai estar lá. 

Se o Flamengo ganhou,  usa a camisa do time,  grita, canta o hino,  

Pega o microfone do cantor, 

E diz que é  Flamengo  até morrer. 

Se o Flamengo perdeu, não dá  um pio.

Fica lá pelos cantos, sozinho,    faz de conta que nem ao jogo assistiu.

Mas se você  for  bulir  com ele,  ah! meu amigo,  aí  você se fodeu. 

Logo ele te manda ir pra puta que te pariu!


Se o Vasco caiu, coitado, o amigo de bar só aparece na segunda. 


Sem trocadilhos,  por favor. 


Mas...Se o Vasco ganhou,  pode contar que o amigo de bar vai estar lá,  todo prosa, querendo cantar de galo,  mesmo sendo peixe. 


E, finalmente,  não vou nem falar de política. Vixe Maria!

A gente se engalfinha  todo na internet de janeiro a janeiro, 

Chama  um ao outro de tolo, corno, esquerdista, esquerdopata, petralha, comunista, gado, bolsominion, minion,  bozolóide, massa de manobra,  genocida,  burro, tapado...

Mas, na mesa de bar, adeus penimba, adeus bate-boca.


Amigo de bar só quer encher o quengo de cachaça,

Esquecer  de política,  de economia,  de inflação, e que viver tá um osso só. 


Sem trocadilhos,  por favor. 


Não se engane: amigo de bar não é  ninguém da aristocracia.

Bar é  reduto  de intelectuais,  artistas,  músicos, poetas,  filósofos de botequim, putas, gays, pretos,  maconheiros,   vagabundos, mulheres de grelo duro e pelos no sovaco, mães solteiras,  professores,  desesperados, sonhadores. 


Verdadeiro exercício da DEMOCRACIA!!!


domingo, 17 de outubro de 2021

FRAGMENTOS DO TEXTO "CONFISSÕES"


(RÔ Campos)


Ele ainda era um principiante, estava dando os primeiros passos nos degraus da escada da vida.  Ela já havia dado muitas voltas ao redor do sol. Mas,  juntos,  pareciam crianças, cheias de lindos sonhos. Ele queria aprender a tocar violão; ela,  percussão. Nada absolutamente os perturbava. 

A diversão  era garantida,  a parceria,  caprichosa.  O bar, onde se conheceram,  era o templo sagrado. O final da noite, sempre fechado com chave de ouro:  a descida da ladeira da Paraíba,  nos rumos de Adrianópolis,  ela ao volante,  na velocidade da urgência juvenil,  ao som dos Tribalistas:

"E a gente canta, a gente dança, a gente não se cansa de ser criança, a gente brinca na nossa velha infância".  Uma infância que só existia na imaginação daqueles dois perdidos na noite,  que se encontraram, se acharam e se perderam de novo.

As conversas , longas e  intermináveis. Assim também os beijos.  Ambos  trocavam palavras acerca de seus sonhos, nunca falavam de problemas e outras coisas do gênero.  Ele queria conhecer o mar.  Nunca havia estado num avião,  muito menos visto o mar, exceto nos sonhos. Era algo recorrente. Logo seguiram a concretizar esse sonho. Viajaram para o nordeste. Dormiram  por três dias no mesmo quarto,  na mesma cama,  fizeram carinho,  se abraçavam, trocaram beijos,   mas tudo não passou disso, o que já era muita coisa. O amor não precisa de muito para se alimentar. Foi durante esses dias em que ele conheceu o mar,  que também fez a ela suas  confissões: (tinha uma jovem mulher  e  uma filhinha),  a relação não estava nada boa. Ela,  como se psicóloga matrimonial fosse,  disse-lhe muitas palavras cheias de positividade. "O amor tem feito coisas que até mesmo Deus duvida. Já curou desenganados, já  fechou muita ferida".  

Depois que voltaram da viagem,  nunca mais se viram.  Desde então,  ele não mais apareceu naquele lugar eleito o templo sagrado de ambos. Ela continuou sua vida...

Anos mais tarde se reencontraram na internet,  mas até hoje não se viram pessoalmente.  Ele,   já com outra companheira. 

Hoje,  passados tantos anos,  cada um segue o destino que escolheu. 

Ele,  então àquela  época prisioneiro, hoje vive  preso  ao amor de outra. Ela,  sonhadora  contumaz,  uma  apaixonada pela vida, protagonista de vários amores,  continua sendo de todo  mundo,  mas não é  de ninguém, e todo mundo lhe quer bem.  Detalhe: também não desaprendeu  a namorar e nem a beijar de língua, embora tantas voltas lindas  ao redor do sol...

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

A VIDA NÃO PERDOA A QUEM DORME


RÔ Campos)

Engraçada, essa  vida. As pessoas passam pela nossa  vida, a gente passa pela vida das pessoas...

Às  vezes,  a gente  vê aquela pessoa,  mas essa pessoa não nos vê.

Ou, então,  a pessoa nos vê,  e a gente nem percebe. 

Em quaisquer dessas duas situações,  muito provavelmente no momento em que um vê, e o outro  não percebe,  é  porque o outro está com o coração  ocupado, ou já tem um inquilino na mira.

O tempo passa,  e, muitas vezes,  anos mais tarde,   sem quê  nem mais,  o destino nos coloca novamente no mesmo caminho,  na mesma  estrada,  na mesma calçada...

Quem não viu, no passado,  e agora vê,  ao tomar conhecimento desse cochilo,  fica a indagar-se a si: - Como essa pessoa passou por mim e eu não vi?...E não se perdoa.

Às  vezes,  dá  tempo de consertar.  Outras,  infelizmente,  vale lembrar um verdadeiro axioma: "a vida não perdoa a quem dorme". 

E, finalmente,  quem  viu,  agora,  depois,  muito tempo depois,  está com o coração ocupado,  ou cansou-se  de esperar. 

Aí,  minha gente,  como  eu já disse aqui,  outro dia,  a vida é  um triz.

DIVAGAÇÕES NA MADRUGADA


RÔ Campos)

Aqui estou a divagar,  bem devagarinho, porque não tenho mais tempo algum para a pressa.

Eis que a pressa  nos turva a visão,  embaça a mente, cansa as pernas,  acelera o coração.

Os pensamentos  viajam.  Andam pela madrugada,  sentam-se à mesa de bar, conversam  entre si,  riem, choram,  arrependem-se, voltam ao passado distante,  e ao recente,  também.  Querem até adivinhar o futuro. 

Aí, eles batem à  minha porta, entram  como  chegam as tempestades,   trazendo notícias do tempo. É  como se um filme em câmera lenta passasse  diante  de meus olhos. 

Fico a lembrar de uma frase que cunhei há muitos anos,   quando as horas invadiam a madrugada, e eu, aqui,  sozinha,  trancada  no meu quarto,  tentava encontrar uma saída para o silêncio ensurdecedor  que teimava ao meu ouvido:

"O tempo e a distância são deletérios  do amor; o silêncio,  a porta do cemitério e o coveiro".

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

SOZINHA


(RÔ Campos)


Noite alta e eu aqui lembrando

De todos os nossos sonhos

E agora,  eu aqui sozinha

Só me restam  as doces  recordações.


Quanto tempo já se passou

Desde o dia em que nos encontramos

Naquela noite de lua cheia

O céu salpicado de estrelas

E a gente  se amando no chão. 


O destino nos separou

Já não sei o que  é  feito de nós 

Tu te aconchegas  em outros braços 

E eu aqui sozinha vivendo nessa desilusão.

domingo, 12 de setembro de 2021

DEIXA - VAI PASSAR


(RÔ Campos)


Deixa...

Deixa o amor falar baixinho ao teu ouvido

Deixa...

Deixa  o amor dizer tudo o que tem

Deixa o amor contar histórias

Deixa o amor dizer, meu bem.


Deixa...

Deixa o amor brincar de faz de conta 

Deixa. Deixa.  É  chegada a primavera

Deixa o amor florir.

 

Deixa. Deixa. 

Deixa  o amor entrar 

Onde o amor está, o  ódio não tem guarida. 


Deixa.  Deixa. 

Deixa o amor falar

Deixa o amor sorrir

Dê um fim a essa tristeza. 


Deixa...

Deixa o amor ficar

Não se deixe enganar

Tudo,  tudo  passa um dia

E essa dor doída  também  há  de passar...

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

A VIDA É UM TRIZ


(RÔ Campos)

O tempo passou
E quem diz que não
Não sabe o que diz
A vida  é  um triz. 

O tempo passou
Num piscar de olhos
Quando acordei
Havia só medo. 

Agora eu nem sei
O que vou fazer
Faz tanto frio
A dor da saudade. 

O tempo passou
E  a vida levou num minuto
O tempo que foi nunca  volta
A vida do tempo é  refém. 

O tempo passou
Agora já é  tudo  ido 
O tempo passou
E levou tudo embora.

Agora é  o tempo
De juntar os cacos
Do coração des-pe-da-ça-do
E seguir  em frente com o tempo.

O tempo que nunca para
O tempo que tudo leva
O tempo que tudo aclara
O tempo que tudo sara.

O tempo passou
Só não viu quem não quis
A vida é  um sopro 
A vida é um triz.