quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

SÚPLICA


(RÔ Campos)


Teu silêncio não o amargavas na solidão da noite.

Quando vomitavas, eu o absorvia.

E teu silêncio gritava dentro de mim.

Eram  pedidos desesperados de socorro...


Muitos ouvidos se faziam de moucos,

Mas os meus ouvidos poucos,

Esses, sempre ouviram os gritos aflitos  do  teu silêncio louco.


Hoje, separadas pelas sombras dos fantasmas que te rondam os dias e as noites,  continuo te ouvindo,

Mas o meu silêncio tu nunca o saberás.

Eles se vão  aos poucos,  levados pelas lágrimas que lavam o meu rosto,

Quando as horas mortas vêm  me açoitar.


Não sei o que  te fiz em meio a tanto bem,

Que tanto mal te causou.

Sempre te dei  o meu riso quando  te achegavas  com teu pranto.

E meu colo nunca te neguei em dia algum. 


Não vou te pedir perdão,  porque não se peca  por amar. 

Só peço ao teu silêncio que,  doravante,

Não me venha mais me visitar. 


Minhas janelas continuam escancaradas,

E as portas seguem  abertas.

Volte,  quando quiser.

Quando te cansares de viver ao leu. 

Quando os teus pesadelos  dormirem,

E acordarem  os teus sonhos,  por fim.

domingo, 6 de dezembro de 2020

AINDA BEM


(RÔ Campos)


Ainda bem que existe noite e dia

Ainda bem que existe o sol e a lua 

Ainda bem que existe a chuva

Ainda bem que existe a semente

Ainda  bem que existe a colheita


Ainda bem. 


Ainda bem que existe a flor

Ainda bem que existe o intervalo

Ainda bem que existe a luta

Ainda bem que existe o fracasso

Ainda bem que o fracasso não é  o fim de tudo


Ainda bem. 


Ainda bem que existe o recomeço

Ainda bem que existe o sonho

Ainda bem que existe a fé

Ainda  bem que existe a esperança

Ainda bem que existe a Ciência


Ainda bem. 


Ainda bem que existe o outro

Ainda bem que  existe a arte

Ainda bem que existe a música

Ainda bem que existe a fantasia

Ainda bem que existe a morte das nossas ilusões. 


Ainda bem.


Ainda bem que existe a tempestade, como também  a bonança

Ainda bem que existe o mal, mas o bem sempre vence

Ainda bem que nada é  para sempre,  a não ser o amor que fica

Ainda bem que tudo  passa

Ainda bem que a besta  também vai  passar...

terça-feira, 3 de novembro de 2020

O AMOR QUE DÁ FOME

(RÔ Campos)


Isso que você chama de amor não está te fazendo bem, não te corresponde, não é o abraço na hora precisa, não é o ouvido devido, não é o sorriso esperado, a força que soma, a fonte em que se banha, a água que mata a sede, o alimento que sacia a fome? 

Isso que você chama de amor é quem te sujeita, quem te vira as costas, quem te bate a porta? 

Isso que você chama de amor é quem te cobra, exige, usa, abusa, e nada faz para te ver em paz? 

Isso que você chama de amor é com quem você não conta em hora alguma, não te faz companhia, não te dá alegria, faz-te chorar, não ter vontade de lutar, viver? 

Ah, sinto muito te dizer, mas isso que você chama de amor, não é amor, é sofrer. Urge desiludir. 

Isso é qualquer coisa, qualquer coisa de burrice, de cegueira espontânea, voluntária,  de carência, de menosprezo por si mesmo. E quem se contenta com qualquer coisa sempre será ninguém, porque não consegue valorar nem a si mesmo. E viverá nadando e se debatendo nas águas dessa megera, que é a fria solidão de um coração vazio, qual um vaso sem flores.

Por isso, costumo dizer: prefiro o nada a qualquer coisa.

É melhor caminhar no deserto, onde se pode, de repente, deparar-se com um oásis,  que seguir à margem de um rio cujas águas não te matam a sede.

É melhor morrer de fome de viver, do que de fome de um amor que não vivifica.

PARA ONDE?


(RÔ Campos)


Vamos marchando sem saber para onde.

Quem sabe o fim da linha,  o fim de tudo,  o fim do mundo.

Mas ainda  assim é  preciso ir,  seguir em frente, mesmo sem saber para onde.

Porque não dá para ficar parado no tempo,  no tempo que sempre segue adiante, no tempo  que nunca para. 

Há  muita gente vazia de tudo.

E há também aqueles que estão cheios de tanto vazio dos outros, Daqueles que não se importam. 

Para onde caminha a humanidade,  não sabemos.

Há muitos abismos que nos separam: religião: "o ópio do povo"; egoísmo: superegos; ismos, ismos, ismos.

A fé na vida cambaleia.

A esperança está na corda  bamba.

CARGA PESADA


(RÔ Campos)


Inveja,  chega pra lá,

Deixa de me provocar.

Vai entrando, vai causando,

Um tremendo mal-estar.


Sinto logo um calafrio.

Tenho medo desse teu olhar.

O ar está cheio de ti-ti-ti.

Muita carga pesada pra cima de mim.


Inveja, eu nunca te namorei.

Vai pra lá, larga de mim.

Tudo o que tenho na vida,

Nada tenho, nada é meu.

UM ROSTO NA MULTIDÃO DA MINHA SOLIDÃO

 

(RÔ Campos)


Você tem um rosto, 

Mas eu não sei quem você é.

Você às vezes conversa comigo,

Mas eu não sei se é você.


Às vezes, você some.

Eu, então, sinto saudades

De quem nem sei se é.

Talvez alguém, ou, quem sabe, ninguém.


Só sei que a saudade vem.

Depois tudo se vai.

Como barcos, que um dia zarpam,

Noutros, aportam em um novo  cais.

terça-feira, 13 de outubro de 2020

A ETERNA ESPERA PELO AMOR-PERFEITI

 A ETERNA ESPERA PELO AMOR- PERFEITO

(RÔ Campos)



(RÔ Campos)

Bem te vi logo te amei

Sabia,  sabiá, sabia,  agora nada sei

Que eu seria tua

E tu também serias  meu. 


Nessa manhã,  no meu pomar Sanhaçu bicou o  caju

E no meu jardim não tardou

A se achegar o beija- flor.


Borboletas na casa anunciam a Primavera

Arrebentou ora-pro-nobis, íris, rosa do deserto e maria-sem-vergonha

É  eterna a espera pelo desabrochar do amor-perfeito...