quarta-feira, 5 de abril de 2023

ACALMA O TEU CORAÇÃO

 

(RÔ Campos)


Cadê a tua fé?

Aonde foi parar a tua brandura?

Para que tanta fúria?


Acalma o teu coração!


Ontem à noite vi ódio em teus olhos.

Tua boca cuspia sangue. 


Como te deixaste vencer pela ira?

Isso não faz bem ao teu espírito,

Aflige a tua alma. 


Acalma o teu coração!


Afasta de ti tudo o que te inflige dor e tristeza,

O que te faz perder o sentido da vida.

Tudo aquilo que te rouba a serenidade,

Que te turva a visão.


Acalma o teu  coração!

domingo, 2 de abril de 2023

OUTONOS


(RÔ Campos)


Em mim há algumas estações já se fez noite.

E, de repente, surges em meio à  nebulosidade do tempo. 

Tudo há operado em mim pela força dos anos  consumidos minuciosamente. 

Eles também me consumiram:

Já não há mais frescor, ainda que seja manhã. 

No pomar,  tudo há amadurecido. 

As folhas, amareladas, caem aos poucos,  como sempre ocorre quando chega o outono.

Assim também se dá nos outonos  de nossas vidas.

Não se vê mais viço.

Somos como tecidos que,  com o tempo,  se esgarçam.

A luz,  a luz ainda tento alcançar ao longe,  ao menos uma fresta,

Pelos olhos cansados  de abrir e fechar,  de sorrir e chorar,  anos a fio.

E, então,  me apareces  assim,  tão de repente,

Quando eu pensava que já havia sonhado todos os meus sonhos e vivido todos os meus pesadelos.

E meus olhos cansados veem teus olhos, no meio dessa escuridão que,  sabidamente, chega para todos que não ficam no meio da estrada. 

Há um quê  em ti que me desperta.

Há um quê  em ti que me diz coisas, que me sussurra, que me intriga e mexe comigo. 

São  como cinzas  adormecidas que, com o teu sopro, fazem surgir uma centelha.

Mas eu,  em meio às minhas elucubrações, penso ligeiro: esse sopro é  fruto exclusivo de minha imaginação. 

Estás no meio da estrada,  e eu já caminho para  o fim.  Não pretendes de modo algum,  penso eu,  acelerar essa viagem para me alcançar.

Não faz sentido. Não tem porque.

Mas eu,  por incrível que pareça,  teimo em sonhar. 

Sonho quando te vejo,  ainda que em uma foto,  uma postagem. 

Miro teus olhos.  Eles me dizem muito de ti. 

E insistem em me enganar,  iludir. 

Teimam  em fingir que,  sim,  eu posso crer,  há uma chance de viver.

Mas eis que,  num súbito,  acordo. 

Não consigo ver nada. Nem o teu sorriso.   Tá tudo escuro.

É  outono em minha vida. 

Não demora, chega o inverno.

Frio. Solidão. Fome. 

Mas em ti, em ti tudo é  primavera.  Depois, verão.

Calor. Dois. Saciedade.

sexta-feira, 31 de março de 2023

CORAÇÃO INSENSATO

 

(RÔ Campos)


O que mais dói em mim

É nunca ter sentido

Que doía muito em ti

Essa dor que agora sinto.


Uma dor que alucina

Que me invade, me anula

Castiga, denuncia

Uma dor que se acumula.


O que mais dói em mim

É ter me cegado à luz do dia

Fechando os olhos para ti

Supondo que eras feliz, porque rias.


O que  mais dói em mim

É o silêncio que hoje me apavora:

Não saber o que é feito de ti

Nem o que são tuas memórias.


O que mais dói em mim

É esse medo que me devora:

Que vivas a esperar por mim

E eu, covarde, não sei ir embora.


(*) 31.03.2013


quinta-feira, 30 de março de 2023

A VELHICE E OS PASSOS DO TEMPO

 

(RÔ Campos)


Estava ali, sentada, numa das dezenas de cadeiras do CAIMI da Colônia Oliveira Machado, o Centro de Assistência Integral à Melhor Idade Dr. Paulo Lima. Meus olhos batem nas fotos do Dr. Paulo Lima nas paredes. Quero lembrar-me de quem era o Dr. Paulo Lima. Algo me diz que eu o conheci. Sinto-o ao olhar sua face, seu sorriso, um jeito manso de ser...mas a minha memória embotada pelo tempo não me permite prosseguir viagem e chegar a um porto seguro. Reparo nas cadeiras, estão todas ocupadas. A maioria, velhos desacompanhados. Uns olham para o teto, ou para a tela estampando os números das senhas, e têm o olhar tranquilo. Outros conversam entre si, calmamente...e até sorriem. Noto uns dois ou três depauperados adentrando o imenso salão, certamente vitimados por AVC. Observo-os envoltos em seus pensamentos, viajando no tempo enquanto o tempo se vai, ora veloz, ora lentamente, e deduzo: eles não têm mais pressa alguma. Já percorreram uma longa estrada, já sonharam muito, realizaram alguns desses sonhos e outros foram desfeitos,  já viveram mais de dois terços do tempo que têm para viver, não precisam mais correr. Para quê?  Ao contrário de quando somos crianças e jovens, que desejamos e pedimos sempre que o tempo voe,  acredito que eles prefeririam que o tempo passasse mais lentamente. É assim que a coisa se processa, certamente. Já estou nessa antessala e pressinto-o. Às vezes, ainda tenho alguma pressa, justamente porque sei que meu tempo é curto, e não quero deixar de fazer algumas coisas que  sei que ainda devo fazê-las, que quero fazê-las. Todavia, estando nessa antessala, posso sentir que ter pressa não faz mais sentido. Depois de uma noite segue-se a manhã, e depois a noite de novo, e outro dia, mais outro dia. Nesse estágio da vida, concluímos que a única pressa que podemos ter é a urgência de viver cada dia, como ele se nos apresenta, contando com a sorte de termos uma velhice assistida, porque, como já disse alguém por aí, "a velhice, por si só, é uma tormenta, pior ainda se desamparada". As minhas andanças e situações vivenciadas nos últimos tempos têm me escancarado muito essa realidade. Uma mãe é para dez filhos. Dez filhos não são para uma mãe.

(*) 30.03.2013


domingo, 19 de março de 2023

SOBRE TODAS AS COISAS

 SOBRE TODAS AS COISAS

(RÔ Campos)

SOBRE TODAS AS COISAS

(RÔ Campos)


É  sobre amar

É  sobre naufragar

É  sobre enganar 

É  sobre lutar

É  sobre perdoar 

É  sobre esquecer

É  sobre entender

É  sobre sofrer

É  sobre viver

É  sobre morrer

É  sobre fingir

É  sobre desiludir

É  sobre rir

É  sobre decidir

É  sobre partir

É  sobre supor

É  sobre dispor

É  sobre o rancor

É  sobre bolor 

É  sobre a dor

É  sobre nada

É  sobretudo sobre nascer,  crescer,  viver, cuidar,  chorar,  amar,  sofrer, partir...

domingo, 12 de março de 2023

QUERÊNCIAS


(RÔCampos)


Enquanto uns  curam com a força do amor, outros adoecem pela falta dele.

Enquanto uns entram para a vida, querendo,  outros saem dela,  sem querer. 

Enquanto isso eu vou vivendo, 

Sugando tudo o que a vida tem para me dar,

E amando.

Porque  sem amor a vida não faz sentido.

Não há presente nem futuro. 

Não tem porque.



quinta-feira, 2 de março de 2023

QUERENDO ENTENDER

 

(RÔ Campos)


Sabe?

Foram tantas coisas,

Muitas coisas que vivi

Desde o dia em que você sumiu na escuridão.


Sabe?

Muitas vezes me perguntei

Onde foi que eu errei.

Mas o futuro irá dizer

Qual de nós dois foi quem feriu e magoou.


Sabe?  

Eu não sei dizer

Das noites em que fiquei pensando em nós dois,

Olhando para o céu procurando uma resposta,

Querendo entender como se pode amar alguém,

Querer tanto bem,

Sendo ao mesmo tempo tão cruel. 


Sabe?

Tanto tempo se passou

Desde quando nos descobrimos. 

Sempre fomos bons amigos,

Mas, como amantes,  sempre fomos dois errantes.


Sabe?

Como você não sabe?

Foram muitas as suas juras de amor eterno.

Ah! Tudo bem.  Agora eu sei.

Como todo "conservador", és  um covarde.