segunda-feira, 19 de agosto de 2019

PEQUENA ORAÇÃO


(RÔ Campos)

Obrigada, Senhor, pois viver é uma graça.
Obrigada, Senhor, pois minhas dores para mim não são desgraças.
Obrigada, Senhor, por me fazer compreender que eu não sei de nada. Obrigada, Senhor, por saber que tudo o que sei é que tudo passa.

ACERCA DO ÚLTIMO ADEUS


(RÔ Campos)

Não me falem sobre selfie em velórios e em cemitérios. De sorrisos amarelos, falsos, ensaiados, ou não.
Não me falem sobre a falta de pudor de quem quer que seja.
Eu não sei da dor do outro, nem se rima com sorriso.

Não me perguntem o que acho disso ou daquilo. Eu nunca tenho respostas para a dor que não é minha. Eu nunca sei da dor alheia, da velocidade e do calor do sangue que corre em outras veias.

Não me suscitem dúvidas sobre a probidade e o amor dos que ficaram. Se choram de verdade por quem a morte arrebatou tão bruscamente, ou se choram esfregando cebolas nos olhos, como os artistas nas telas do cinema ou nas telenovelas.

Não me falem mais sobre coisas medíocres, nem sobre o tabuleiro da política. Eu desisto. Porque tenho cá comigo que a política é a "arte" dos absurdos.
Eu já não mais me espanto com o legado do colonizador.
Esse é o nosso retrato pintado em preto e branco. É como se fosse um trato imoral e indecente nesse interminável teatro: vai de mão em mão, de pai para filho, para neto, bisneto, tataraneto..., sob várias direções. E tudo recomeça com as gerações seguintes, desde mil quinhentos e pouco, quando Portugal decidiu invadir e ocupar as terras de nossos ancestrais, arvorando-se descobridor destas terras que desde sempre existiram. E o único véu que Portugal retirou, descobrindo estas terras, decerto foi o véu que cobria a vergonha de nossas mulheres.

Verdadeiras capitanias hereditárias é o que somos. E manipulados. Escancaradamente manipulados. E nos deixamos manipular amiudadamente, calados, engasgados. E nos entregamos, assim, como se desistíssemos da vida, porque já não vemos sentido algum nessa ópera bufa. E vamos nós, um por um, silenciosamente, nos retirando dos teatros da vida, muito antes do último ato.

Pois bem.

Eu só sei da dor que eu sinto. E sei também que a morte é o momento mais sublime de nossas vidas. Porque... não é quando somos dados à luz, o momento mais sublime, pois estamos vindo ao mundo, começando os primeiros passos dessa intrigante trajetória. O instante mais sublime é quando nos vamos. Porque nunca mais nos veremos em carne e osso. Porque nunca mais ouviremos a voz, os gritos, os cochichos uns dos outros. Porque nunca mais nos abraçaremos, sorriremos ou choraremos juntos. Nunca mais dormiremos e acordaremos juntos. Nunca mais sonharemos juntos. Esse é o momento mais especial de nossas vidas. E não necessitamos de foguetes, de barulhos, de flashes, de promessas vãs. De silêncio é que precisamos. E de entrega total nesse instante final. O resto não tem pressa alguma. O resto fica para amanhã...

COMO A ALMA DA GENTE


(RÔ Campos)

Porque, naquele tempo, era muito cedo pra ti· E agora, pra mim, a tarde vai findando e escancara a porta pra que a noite entre· A equação já não bate·
Essa matemática tão exata, que não deixa margem pra erros! Se muito, restos·
Mas ninguém vive de restos· Ou são desprezados, esquecidos, ou vão parar na lata do lixo·
Deveria haver um pouco de humanidade nessa exatidão· Uma espécie de conciliação entre a alma e o corpo, a aparar as arestas do tempo· Afinal, que culpa tem a alma, imanente, se o corpo envelhece?
O que me resta, agora, senão a ilusão de que há vida lá fora, onde eu possa te rever um dia, num tempo sem equação, nem matemática, nem sobras· Um tempo sem corpo, sem dia nem noite· Apenas a energia a fluir e o céu como condutor· Um tempo permanente como a alma da gente·

domingo, 11 de agosto de 2019

AMOR SOBERANO

(RÔ Campos)

O amor é soberano,
Sem súditos nem vassalos·
Seu poder é absoluto,
Sem jamais ser tirano·
Recai sobre ricos e pobres,
Homens e mulheres, crianças e velhos,
Pretos, brancos, índios e amarelos·
O amor é soberano
E também servo do homem·
Universal, divino,
Dá à vida o sal·
Bem-vindo sal da vida·

quarta-feira, 3 de julho de 2019

POEMA SEM NOME


(RÔ Campos)

Não gosto de multidões,
Prefiro os desertos.
Não gosto de ruídos,
Prefiro os silêncios.
Não gosto de promessas,
Prefiro os fazeres.
Não gosto de mentiras,
Prefiro as verdades, as mais mentirosas.
Não gosto de cores frias,
Prefiro as cores vibrantes:
Vinho, vermelho, verde.
Flores!
No mais, eu gosto de tudo:
De tomar banho de chuva e de me entregar ao sol.
Dos dias amenos e das noites vibrantes
Das estrelas candentes.
De chocolate...Quente!
Do vento que toca, das árvores que dançam:
Eu lembro dele me sussurrando ao ouvido,
A boca atrevida beijando, mordendo, molhando minha pele.
E de suas mãos passeando sobre meu corpo, me virando pelo avesso,
E me levando ligeiro pra lua.
Eu lembro, então, que sou dele.
Mas ele é do mundo, que é de todos, e não é de ninguém.

SOBRE O ARREPENDIMENTI


(RÔ Campos)
O arrependimento, quando bate, vem destruindo tudo; às vezes não dá mais pra consertar nada, pois já é tarde.
Muito cuidado com as palavras jogadas ao vento. O mal vive acordado querendo apanhá - las.
Tem muita gente ruim neste mundo, invocando Deus a toda hora. Mas só Deus sabe o que elas fazem às escondidas.
Quanto àquelas pessoas que costumam julgar e condenar os outros, que exibam o certificado de aprovação expedido por Deus... E atirem a primeira pedra. No mais, que se recolham às suas insignificâncias.

terça-feira, 18 de junho de 2019

CORAÇÃO CERRADO


(RÔ Campos)

Não abriste a porta para o meu coração entrar.
Não quiseste, ou não achaste a chave.
Presumo que, perdido, sequer a tenhas procurado.
Estavas tentando te encontrar a ti,
Como se tua alma te houvesse abandonado.
Mas, mesmo que a abrisses,
Meu coração não conseguiria ultrapassar aquela porta estreita.
Porque meu coração é grande demais para se agasalhar no teu.

Ao reverso, com os olhos brilhando,
Abri a porta do meu coração, em festa, para o teu entrar.
E teu coração coube dentro do meu.
Mas me dei conta de que tudo isso não passou de um sonho,
Em muitas noites em que no céu pontilhavam as estrelas.

AMOR MEU!

Porque teu coração, nenhum dia, nenhuma noite,
Quis morar juntinho ao meu.