terça-feira, 29 de março de 2011

FRAGMENTOS DE " DESUMANA HUMANIDADE"

(RÔ Campos)


Não é bom de coração:
O homem que não sabe a humildade.
O homem que não tem vergonha da sua falta de vergonha.
O homem que se julga ser. E, na verdade, não é nada.

Não sabe de onde veio, nem para onde vai.
Senta-se também em vaso sanitário, arria as calças,
Faz xixi, arrota, solta traques.
Nasce , cresce, deseja, tem diarreias, fome,
Tosse, insônia, adoece, morre.
Do pó veio. Ao pó volverá.
Aqui chegou nu, e aos prantos.
Nada levará consigo.
Nem lágrimas. Nem sorrisos.
Nem a posse de seu corpo, que nunca teve.
Nem a posse da sua (in)consciência.
Nem o amor das mulheres e dos homens,
Que - sabe - o dinheiro pagou e não comprou.
O amor não se vende!

Humana, demasiadamente humana, desumana humanidade!.


26/10/2010

MARÇO

Mar, do mês de março
Março, das águas torrentes
De amores vertentes
De dores nascentes.

Março, o mês terceiro
Dos meus amores
Que pariu abril
De chuvas mil.

Março, que, com fevereiro
Disputa, maravilhosamente
O carnaval
No Rio de Janeiro.

Março, dos arianos
Profanos
Nem santos, nem insanos
Artífices.

Março, que se despede do verão
Quando se vai mais uma estação
Nasce abril, é outono
E no sertão não cai folha, não.

Março, que já foi negação
Tudo era não
No último dia
Da re(in)volução.

Março, que escancarou ladrões
Das nossas canções
De nossos corações,
Destruindo sublimes ilusões

Março, que dormia agonizando
Levantava em meio a prantos
Transcorria moribundo
E morreu torturado, vagabundo.

Março,
Do fim de tantas alegrias
Início de persistente agonia
Extermínio covarde da fantasia.

Março,
Sem cadeiras na calçada
Sem aceno na varanda
Não se pode ver passar a banda.

Março,
Que “Vai passar”, “Apesar de você”
Quando o dia florescer
“Pra não dizer que não falei das flores”.





(31 de março de 2004)

domingo, 20 de março de 2011

PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE FLORES

(Escrevi este texto há mais de uma semana, no Facebook, e não conseguia transportá-lo para o blog. Finalmente consigo agora. Repasso. Sei que, ao escrevê-lo, apenas exemplifiquei nomes de artistas pioneiros de nossa música, dentre tantos outros, mas há um, em especial, que não citei, e só agora me dei conta, numa prova inconteste de que minha memória anda me traindo. Ele não poderia faltar, inclusive por ser um dos maiores compositores deste país, reconhecido por seus pares daqui e dalhures, o meu queridíssimo Zeca Torres, o Torrinho, compositor, em parceria com o poeta Aldísio Filgueiras, daquela que veio a ser considerada o hino extraoficial de Manaus, Porto de Lenha. Se toca, Rafael, pra esse dinossauro).

"Adormeci e logo despertei. Os acontecimentos de ontem me deixaram eletrizada. Não tive saída. Vim ao computador para escrever este artigo, que fervilhava em minha mente. Quem tem o dom de escrever conhece bem esses ímpetos, que precisam ser satisfeitos a todo custo.

Passados os momentos de euforia, de bate e rebate, reflito. Ao final, concluo: necessito dizer algo ao não muito jovem (falando-se de idade cronológica) Rafael Medeiros, esse rapaz que, até agora, não temos ainda conhecimento de como infiltrou-se na Ordem dos Músicos do Brasil, seção Amazonas. Ele, um estranho no ninho, um anônimo, que nas redes sociais incita o tumulto e a desordem, que usa de meios os mais comezinhos para denegrir a imagem de artistas que ajudaram a construir a história da música amazonense, pioneiros como Antonio Pereira, Célio Cruz, Cileno, Candinho & Inês, Márcia Siqueira, Paulinho Kokay, Lucinha Cabral, Renatinho, Lucilene Castro, dentre tantos outros, chamando-os de dinossauros, velhos e lançando toda a sorte de impropérios.

Saiba, Rafael Medeiros, que esses ilustres dinossauros pavimentaram toda essa estrada em que você, agora, ensaia engatinhar, com muita pressa para galgar o topo dessa montanha íngreme. São vidas inteiras dedicadas à música, com biografias que muito nos orgulham, conquistadas em noites indormidas e dias de muito, mas muito sacrifício. E, ainda agora, mesmo dinossauros, como você os trata, muitos deles, senão a maioria, não alcançaram o retorno almejado, seja financeiramente, seja o reconhecimento do público ou coisa que o valha, porque (você é muito imaturo para entender), fazer música e viver de música neste país é um exercício hercúleo, desgastante e sofrível. Na Amazônia, onde alguns outros declaram nem saber se há civilização, como garotos coloridos que mal abandonaram as fraldas, pior ainda. Muitos estúpidos há que, até hoje, consideram a profissão de músico coisa de vagabundo. Sensibilidade é algo divino, e os brutos não entendem o que é sublime.

Eu te aconselharia, se me fosse dado fazê-lo, a debruçar-se sobre a história desses dinossauros, e, quem sabe, como um daqueles filmes de Steven Spillberg (Jurassic Park, acho que é por aí), você pudesse transformar-se em um dinossaurozinho, herdando o DNA desses monstros que merecem respeito. É, Rafael, respeite quem soube chegar onde eles chegaram. Não foi de graça. Nada vem de graça. Nem o pão, nem a cachaça (como diz Zeca Baleiro em uma de suas músicas, cujo nome ora não recordo, até porque a velhice acaba nos roubando tanto de nossa memória...).

É, Rafael, velhice é assim mesmo. Ela não perdoa. Mas o envelhecimento é um processo natural do ser humano. Um dia, todos nós, os velhos, já fomos jovens, e só envelhecemos porque estamos vivos, você está me entendendo? Ninguém, nesse caso, escapa, até você, se tiver a sorte de chegar até aqui. Agora, velhacaria, é outra coisa. Velhacaria é uma nódoa no espírito.

Por fim, Rafael, mais uma vez eu te aconselharia, se me fosse dado fazê-lo, a mirar-se no exemplo desses dinossauros, pois muitos frutos colherias, para ti e toda a tua geração. Não se passa um apagador em marcas indeléveis, como as pegadas que esses monstros foram deixando pelo caminho em que andaram. Vá devagar com o andor, que o santo é de barro, reza o dito popular. Não insista em destruir os alicerces de nossa história musical, pois, caso contrário, não terás, nenhum dia, onde assentar a tua própria história, que ora buscas através de caminhos tão sinuosos.

No mais, Rafael, é continuar a tua estrada, caminhando e cantando e seguindo a lição..."

sexta-feira, 11 de março de 2011

A DOR DO JAPÃO

Minha irmã contou-me, à noite, sobre os acontecimentos terríveis no Japão. Não tive coragem de ligar a TV, para não deparar-me com cenas que, segundo meu filho Éric, fizeram-lhe chorar.
Acesso a net e leio que algo em torno de mil pessoas já devem ter morrido em consequência dessa trapédia. Mas foi inevitável vir à minha memória o terremoto do Haiti, ocorrido em janeiro de 2010, onde muitas vidas foram ceifadas, um número infinitamente maior que o do Japão, potência mundial, que tem seu povo treinado e preparado para enfrentar essas catástrofes e edificações à prova desses abalos. Hoje, passado mais de um ano, o Haiti, país pobre e com história de exploração vergonhosa, continua na mesma, não havendo se reconstruído, com o seu povo se dispersando pelo mundo, inclusive pelo Amazonas, em busca de sobrevivência, instinto natural do homem. As grandes potências parecem haver esquecido o Haiti, abandonado em sua imensa dor. E leio em A Crítica de hoje (sexta-feira) notícias alvissareiras de que famílias do bairro periférico da Redenção, aqui em Manaus, adotaram vários haitianos que estavam abrigados na Paróquia de São Geraldo. Que o Senhor seja louvado! E que o Senhor alivie as dores do Japão, cujo chão se parte e sangra.

quarta-feira, 9 de março de 2011

NOTA DE REPÚDIO A ATO DA OMB/AM

A Cooperativa de Música do Amazonas - TIPITI; o Sindicato dos Músicos do Estado do Amazonas - SINDMAM e os músicos que subscrevem esta, manifestam REPÚDIO pela ação de constrangimento infligida à cantora amazonense MÁRCIA SIQUEIRA, pelos fiscais da Ordem dos Músicos do Brasil – Secção Amazonas, no dia 03 de março de 2011, no evento “Feira do Tururi”, quando a mesma foi impedida de participar, por não estar portando, no momento, a Carteira da OMB, tendo sua anuidade válida até 31 de março do corrente ano. REPUDIAMOS veementemente as ações de administração da atual gestão, a saber: Ausência da prestação de contas; Desconhecimento, pela categoria, dos critérios para contratação dos fiscais; Inexistência de Eleição Anual de 1/3 do Conselho, conforme a Lei n. 3.857; Contas Pendentes na sede antiga; Aplicação indevida de multas; Possível extorsão ; Abuso de autoridade; Perseguição e represália a músicos e empresários do ramo de entretenimento; Irregularidade nos cargos do Conselho Regional; Possível expedição irregular de Carteiras profissionais; Assédio Moral. Diante dos fatos, a categoria reivindica com urgência: Intervenção imediata no Conselho Regional; Levantamento do número de carteiras profissionais expedidas na gestão atual e acesso às provas escritas; Sindicância e/ou Auditoria para avaliação das ações e nomeações da atual gestão.

CONVITE PARA ATO DE REPÚDIO À OMB/AM

Caros Artistas e interessados:

Convocamos todos vocês para o Ato de Repúdio que acontecerá segunda feira, dia 14 de março, em frente à OMB - Major Gabriel, em frente ao Cemitério S. J. Batista - a partir das 14h, contra os atos de arbitrariedade da atual gestão da OMB/AM, que culminaram com o constrangimento à nossa querida artista Marcia Siqueira, impedida por fiscais da Ordem de apresentar-se na Feira do Tururi, dia 03 passado, simplesmente porque não portava sua carteira de músico naquele momento, quando inexiste qualquer exigência legal nesse sentido. Podem levar faixas e cartazes. Teremos um trio elétrico no local para quem quiser se pronunciar. Convidem...donos de estabelecimentos que possivelmente tenham sido lesados, multados indevidamente ou extorquidos, amigos músicos que porventura tenham também sido perseguidos e constrangidos. Não estamos de brincadeira.

sábado, 5 de março de 2011

ABAIXO OMB!

Inacreditável que, em pleno século XXI, em Manaus/Amazonas/Brasil, a léguas de distância de regimes autoritários, como aqueles que ora desabam no Egito, Líbia, Tunísia etc, uma artista local de renome, reconhecida pelo seu talento e voz maravilhosos, como a nossa querida Márcia Siqueira, seja impedida de fazer sua apresentação na Feira do Tururi, privando toda uma juventude àvida por escutá-la e divertir-se ,mediante atitude de fiscais da Ordem dos Músicos do Brasil - secção do Amazonas, sob alegação de que ela não portava sua carteira de músico. Simplesmente inconcebível que, vivendo sob um regime democrático de direito, com a Constituição Democrática de 1988 afirmando o respeito à dignidade da pessoa humana e assegurando o direito ao trabalho e à livre manifestação do pensamento, bem assim mantendo a liberdade do trabalhador de associar-se, ou não, a qualquer associação, sindicato ou similar, seja uma cantora, da expressão e do reconhecimento de Márcia Siqueira, proibida de exercer o seu ofício, simplesmente por não dispor, naquele momento, de uma carteirinha de identificação de músico, e mesmo havendo a mesma argumentado que estava em situação absolutamente regular.
Já não é de hoje que vêm ocorrendo verdadeiros desmandos na (des)ordem dos músicos local. Eu mesma fui testemunha de um descalabro desses, em visita que fiz à entidade, no ´final de 2009, acompanhando um músico local que comandava um grupo musical, impedido pela (des)ordem de tocar numa casa noturna, pelo fato dos músicos estarem, à época, inadimplentes com o pagamento das anuidades, ou, ainda, pela ausência de inscrição de dois deles. Procurávamos a possibilidade de um acordo, com o parcelamento dos valores, que ultrapassavam os dois mil reais, ao que o sr. Salazar, presidente, negou-se veementemente.
Sem alternativa, decidimos, após meus esclarecimentos jurídicos, ingressar com Mandado de Segurança perante a Justiça Federal, com o fim buscarmos uma liminar, coibindo os atos do presidente da (des)ordem, permitindo aos artistas exercerem o seu ofício, que garantiria o sustento próprio e de seus familiares, bem assim, quando do julgamento do mérito da ação, o seu provimento definitivo. Após formulada a peça do Mandado, infelizmente, o grupo desistiu da ação, pois os músicos tinham receio de, em não obtendo êxito, passassem a ser perseguidos pela Ordem, sendo novamente impedidos de trabalhar, já que não dispunham de dinheiro para regularização imediata.
Mais adiante, logo após o início do ano de 2010, tive conhecimento de que o Sindicato dos Músicos local, teria ingressado com semelhante ação perante a Justiça Federal, e obtido uma liminar, o que confirmei acessando o site da Justiça na net, sendo motivo de enorme felicidade para mim, que conhecia muitos músicos que estavam em situação de extrema dificuldade, sem dinheiro para fazer sua inscrição ou para regularizar a tal pendência na anuidade. Durante meses a classe musical navegou em mares tranquilos, mas a alegria durou relativamente pouco, pois, ao sentenciar a ação, lamentavelmente, a juíza a julgou improcedente, por entender que o músico tem que passar pelos execrados exames na Ordem, a fim de obter a careirinha, obrigando-se ao pagamento das anuidades, fundamentando-se na caduca legislação de 1960, que criou a Ordem dos Músicos, lei essa que já nasceu viciada, com ranço da era Vargas, que até podia bem assentar-me àquele momento, mas que hoje, sob a égide de uma Constituição Cidadã, entra na contramão da nova ordem constitucional estabelecida no país a partir de outubro de 1988, conflitando frontalmente com os seus princípios e direitoe fundamentais.
Getúlio Vargas tinha o arraigado gosto de manter os artistas sob seu controle, manipulando-os, pois ditadores bem conhecem o papel de formadores de opinião da classe artística, pensadores e intelectuais. Heitor Villa-Lobos, que ocupou cargo de destaque na área de música, no Governo Vargas, chegou a ser execrado por seus pares, que acusavam-no de vendido ao regime.
Então,já até passou da hora de jogar as roupas velhas desse quarto, de tomar de novo à mão o leme desse barco (parodiando a belíssima música Renovação, de autoria do cantor e compositor amazonense Candinho, da dupla Candinho & Inês) e mudar os rumos dessa cidade, desse país. Há mais de 20 anos, depois de muito sofrimento, sangue e dor, galgamos um lugar no mapa de países democráticos,onde muita coisa ainda nos causa perplexidade (nossa democracia é uma menina moça, muito tem a caminhar até chegar à maturidade), mas é livre a iniciativa e o trabalho é um direito de todos; é livre o pensamento, é livre a expressão artística, onde licença pra cantar e tocar, só a Deus, para quem Nele acredita. LIBERDADE, É A PALAVRA DE ORDEM. LIBERDADE, DEVE SER A ATITUDE DA ORDEM.