segunda-feira, 27 de julho de 2020

ÀS VEZES



Às vezes não conhecemos os segredos de nossa própria alma.

Às vezes amamos alguém, e nem sabemos que estamos amando. 

Às vezes saímos errando por aí, e nem sabemos que erramos.

Às vezes bem que poderíamos falar menos e ouvir mais, mergulhar no mais profundo do nosso ser.
Talvez, aí, encontremos algum tesouro...

QUEM DE NÓS


(RÔ Campos)

Quem de nós  pode dizer que o  tempo não tem razão?
Quem de nós pode fugir das teias do tempo?
Quem de nós já não deu tempo ao tempo?
Quem de nós já não voltou no tempo ou não tentou ir além dele?
Quem de nós não desejou, ao menos  um dia,  que o tempo passasse ligeiro,  ou que o tempo parasse no tempo?
Quem de nós não acreditou que o tempo é  o senhor de tudo? De todas as verdades e de todas as mentiras?
Quem de nós não jogou nas mãos do tempo  todos os seus sonhos?
Quem de nós não esperou no tempo a cura?
Quem de nós irá  negar que o tempo não tem pernas,  mas  anda,
Não tem asas, mas  voa,
Não tem boca, mas fala,
Não é juiz,  mas condena,
Não é  Deus,  mas liberta?

GRITOS DO SILÊNCIO


(RÔ Campos)

Nesta hora,  em que a manhã já  bateu pernas e corre o mundo,
Queria te dizer,  a ti somente,
(Ainda que intrusos se metam  a querer entender),
Que o imenso mar que nos separa
É  também  deserto,  onde o vento sopra forte.
E as batidas na porta muito me dizem de ti, tão longe,  tão distante, mas tão perto do meu lembrar,  do meu existir...
O que dizer,  então,  do teu silêncio, mestre das palavras,  dissecador  de almas, neste dia de hoje,  do escrevinhador, do latifundiário de vastos e áridos territórios sedentos do saber?
Ora, teu silêncio fala muito mais que mil palavras. Teu silêncio grita a tua solidão, a tua vergonha,  a tua ressaca.
Mas as tuas  letras combinadas, as tuas palavras,  frases soltas e ou inteiras,  elas me dizem da tua embriaguez...

NENHURES


(RÔ Campos)

Sonhei em segredo os meus sonhos
E consumi  sozinha os  meus medos
Com medo que o medo  devorasse
Os sonhos que sonhei em segredo.

Lembrei dos tempos de fartura
Todos se apresentavam  na colheita
Ninguém jamais vi na semeadura
E nem nos dias de fome...

Emudeci no barulho do dia
Ninguém havia que me ouvisse
Chorei  no silêncio da noite
Enquanto a plateia ainda dormia...

terça-feira, 7 de julho de 2020

CAUSA E EFEITO

(RÔ Campos)

Fez pouco caso de mim
Destruiu meus castelos de areia
Juntou todos os meus sonhos com as mãos
Jogou fora na lata do lixo.

Agora eu já me encontro refeita
Ergui a minha cabeça
Já consigo mirar as estrelas
Hoje é  ele que,   triste,  rasteja.

Já aprendi de vez a lição
Que a vida sempre nos ensinou:
Se hoje com muita força és pedra
Amanhã serás  telhado de vidro.

segunda-feira, 15 de junho de 2020

TRAVESSIAS

(RÔ Campos)


Um grão de areia
Um pingo d'água
Um deserto
Um oceano.

Um grão de areia pode cegar
Um pingo d'água pode afogar
Todo deserto tem um oásis
Todo oceano separa.

De grão  em grão fez -se o deserto
De pingo em pingo se enche um cântaro
Todo deserto é solidão
Todo oceano é mistério

Decerto que o vento que sopra lá
Não é o mesmo vento que sopra aqui
Decerto que a solidão é um deserto
E todo deserto é uma prisão a céu aberto.

Decerto que um pingo d'água pode matar a sede
Decerto que num oceano inteiro não  se tem água  pra beber
Cada qual é o que se é
Tudo a seu tempo e hora.

quarta-feira, 3 de junho de 2020

A DOR DA DOR QUE SENTE


(RÔ Campos)

Por que tem que ser assim tão longe
O que vive dentro da gente?
E as nuvens leves pesarem com o tempo,  num acúmulo de forças
A desabar  como forte chuva sobre as nossas cabeças?
O que foi feito do sol que até ontem à noite ainda dormia plácido
E havia sol, lua e estrelas no céu que nos cobria?
Aonde foi parar a  fé que,  depois de longa agonia,
Foi morar em cada flor que se abria
E não havia nem escuridão nem medo?
E vieram tantos que se diziam pequeninos e se queriam profetas·
E bradavam que a esperança ,com sua espada,
Venceria o algoz de todos nós - Golias,
Golpeando a face  obscura das gentes que se diziam
Um despertar de um novo tempo, um voo alto, um canto cálido·
Mas o que se vê, agora, o que se ouve, o que se sente:
Os olhos eram cegos e não viam
E os ouvidos se perderam entre as bigornas, os estribos e os martelos·
A carne  apodrecendo nos becos do esquecimento
Ou nos corredores de paredes brancas sob os olhares dos aflitos,
Nada mais sente a não ser a dor da dor que sente,
E os gritos que saem da boca dos homens de amores famintos
Que agonizam ali  nos corredores da morte
Enquanto demora a morte total e morrem aos poucos os sonhos que não mais voam:
Asas partidas, céu sem vento, esperanças perdidas·