sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

SONHO REALIZADO, REALIDADE NUA


(RÔ Campos)

Tudo era apenas um sonho
E depois se tornou realidade.
Trabalhei como as formiguinhas,
Ladrilhando dia a dia o meu caminho.
E descobri que, na vida,
É preciso ter muita coragem,
Pois o monstro vence os covardes.

Sair, pôr os pés na estrada,
Não ter medo de cair na lama,
Nem de ir ao fundo do poço.
Descobrir a força que nos move,
E, tal fênix, ressurgir das cinzas
Para subir as montanhas .

Descobri que o fogo que acende a vida
É o mesmo que a devora.
E que o vento que levanta o fogo
É o mesmo que o apaga.
E que a aurora, quando vai embora,
Anuncia o crepúsculo que se avizinha.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

INFELIZ DA NAÇÃO CUJO "DEUS" É O SENHOR


(RÔ Campos)

Fecha a boca, fica calado
Se não te pegam numa cilada
Melhor calar, não dizer nada.
Não diz mais nada, engole tudo
Depois vomita o teu silêncio.

Que tristes tempos!
Escuridão cobriu o céu
Do meu Brasil.
De norte a sul, de leste a oeste
Infeliz mente de nossa gente!

Já não vejo mais o meu amigo,
Outrora como eu um sonhador.
Fazia música, lindas canções
Acreditava na liberdade
E a cantava como um refrão.

Infeliz mente, mente deliberadamente
Crê na polícia, crê na milícia,
Crê no exercício da força bruta,
Só não crê mais na leveza da batuta.

Fecha a boca, fica calado,
Hoje fala a hipocrisia,
Tudo falácia da burguesia.
Falam a chibata, os energúmenos,
Os idiotas e os ignaros.

Poeta, meu poeta!
Agora sei por que indagavas:
Que país é este?
Infeliz mente do povo brasileiro
Abduzida, hipnotizada, exorcizada,
Seduzida aos montes, pastoreada,
Como se arrebanha feito manada.

Infeliz da nação cujo "Deus" é o Senhor!
Infeliz da nação cuja arte é jogada na fogueira do inferno!
Infeliz da nação quando fala a ignorância e o povo escuta!
Infeliz da nação quando a verdade é camuflada, ocultada, os olhos são vendados, a mentira grassa...E o povo crê!
Infeliz da nação que idolatra quem separa, quem destila o ódio, quem massacra o homem, quem humilha e pisoteia, quem distorce a verdade, quem digladia, quem mata, quem crê no infeliz que mente.
Infeliz da nação onde o pobre e oprimido se alia ao opressor!
Infeliz da nação onde a arte se rende, se cala, e fala o obscurantismo!

CUMPRE O TEU DESTINO


(RÔ Campos)

Sei que está chegando a hora
Em que vais atravessar a porta
Deixando para trás tudo o que jamais quiseste.

Nada levarás de mim
Nem meu coração, que deste às traças
Nem o meu amor, do qual zombaste tantas vezes
Nem a minha dor, que dor não mais existe.

Ficarão comigo o cheiro do quarto
Um misto de perfume, cerveja e cigarro...
O teu abandono, o teu descaso
O teu olhar oblíquo, e o teu sorriso falso.

Mas as lembranças ficarão também
Dos belos dias do começo
Quando tudo era ilusão
Eu cria que era feliz
Mas a tristeza batia à minha porta
E eu fingia que não a via querendo entrar.

E houve uma noite em que eu, desprevenida
Soube de tua boca o que seria um açoite
Que me cortou o peito e me deixou perdida
Num beco escuro, sem chance alguma de saída.

E muitas noites vieram depois daquela
E nunca mais eu fui a mesma.

Andei dias e noites a esmo
Caí, levantei, sorri sem ter porquê
chorei sem lágrima cair
Entrei em labirintos assustadores
Me vi diante de uma solidão crusciante
Que parecia não ter fim.

E eis que quando volto a me sentir mais segura
Tu vens e de novo eu penso que é para ficar
Mas retiro as vendas dos meus olhos, ainda a tempo
De ver que não és tu o meu lugar.

Agora tu me falas que está chegando a hora
Em que vais atravessar a porta
Talvez quem sabe provavelmente para nunca mais
Eu te digo, então, segue em frente
cumpre o teu destino, vai na paz
Vai procurar no futuro o que o passado não te deu
E o presente que deixas para trás.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

AURORA


(RÔ Campos)

Não era pra terminar assim.
Havia muita estrada no que ainda tinha porvir.
A gente rindo feito criança tonta sonhando se equilibrando na corda bamba sem medo nenhum de cair.

Fizeste tão pouco de mim porque não me querias assim:
Arco e flecha zarabatana na mão tendo por alvo o teu coração.

Fugiste no meio da noite como se o sono que me cobriu não fosse ter fim.
Me deixaste abandonada jogada no leito com cheiro de mofo em um quarto qualquer.
E eu feito louca vesti minha roupa joguei meus anéis.
Com os olhos de fogo cuspi tua boca e dedos em riste te disse te amo e te odeio sai com esse corpo do meu caminho que eu quero sair dessa prisão em que me joguei.
Abre essa porta lá fora há sol e estrelas há vida que eu quero viver.
Toma essa chave agora que já é chegada a hora o escuro ficou claro sorriu a aurora eu me libertei.
Faça com ela o que bem quiser eu não tenho mais nada com isso o teu castigo é só teu.
Adeus!

sábado, 9 de novembro de 2019

FRAGMENTOS DO TEXTO "CONFISSÕES"


(RÔ Campos)

Confesso-te, a ti que tem sido uma das amigas mais presentes em minha vida nos últimos tempos: no jogo em que nos pusemos a jogar, eu percebia, de longe, as rasteiras que ele pretendia me dar, mas eu me permitia cair. Eu queria ver até onde ele seria capaz de ir. E o tempo foi passando...E eu sempre deixando que ele achasse que estava ganhando as partidas, ou até mesmo que sentisse a certeza da vitória.
Agora, minha doce amiga, aquela que me diz para que eu deixe meu coração me levar aonde ele quiser ir, cheguei à clara conclusão de que eu, na verdade, sempre quis perder.
Acostumei-me às grandes empreitadas na vida, às lutas árduas, ergui trincheiras, montei barricadas, tantas vezes fui à guerra, e nunca fui vencida, mesmo algumas vezes cansada. Talvez eu quisesse conhecer a sensação do que é o perder e, assim, me perdi nesse labirinto de coisas, planos, projetos, sonhos. Quem há de saber?
Por isso, te confesso, não guardo mágoa nem rancor, sequer arrependimento. Não tributo a ele nenhuma culpa pelos nossos desatinos. No amor não há culpados, apenas corpos suados, um querendo possuir, outro buscando se entregar.

No entanto, não me perdoo.

Eu quis me entregar, mas ele não quis me possuir. Eu me desnudava todo dia, escancarava a minha nudez, mas ele nunca desejou sugar o néctar de minha alma, sentir o perfume da minha paixão. Nem mesmo da minha carne ele quis usufruir. Nele, só havia uma intenção: ter-me como um objeto qualquer, pegar, usar, jogar...Ou um alimento que, de repente, matasse a sua fome, uma água cristalina que saciasse a sua sede, o calor que espantasse o frio terrível que o assombrava. E eu sabia de tudo isso. Eu sentia a sua frieza. Eu assistia a todos os seus atos, a princípio, calada, depois me pus a me rebelar. Estava tudo ali, ao meu lado, na minha frente, dormindo comigo.

Por isso, te reafirmo: eu não me perdoo.

E, como não me perdoo, não posso mais seguir com ele...Porque não há caminho algum a percorrer. Nem algum lugar aonde chegar...

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

O DIA NOSSO DE CADA VEZ

(RÔ Campos)


Amor...
É assim mesmo,tudo acontece,coisas da vida...
Coisas quebram,algumas têm conserto; outras, não, inclusive o coração da gente.
Se dá pra colar os cacos,a gente cola.
Se não dá,vamos simbora assim mesmo.
Um dia, quando a gente menos espera, tudo se resolve:
Um coração novo...Um novo amor...Novos desafios.
Porque a vida é mesmo assim:
Num dia faz calor, noutro dia faz frio.
E, então,vamos seguindo,vivendo um dia de cada vez:
Cada dor a seu tempo.
Cada amor em seu momento.

DEIXA

(RÔ Campos)


Deixa...
Deixa o amor falar baixinho ao teu ouvido.
Deixa o amor dizer tudo o que tem. Deixa o amor contar histórias. Deixa o amor dizer.
Deixa o amor fazer de conta que está mentindo.
Deixa o amor sorrir.
Deixa.
Deixa.
Deixa o amor entrar. Onde o amor está, o ódio não tem guarida.
Deixa o amor ficar. O ódio está de partida.