(RÔ Campos)
Assim meu coração não Aguenta!!!
Hoje, quase manhã, dei uma carona a um amigo que mora na Boa Sorte, rua no bairro da Matinha onde eu nasci e me criei, até os 15 anos. Deixei-o cerca de uns 200 metros após o início da rua e fui descendo devagar, olhando casa por casa, quando deparei-me com meu amigo de infância, Raimundo Bezerra Barbosa, pai do Ramõn, amigo de meus filhos do Colégio Preciosíssimo Sangue. Ele arrumava os produtos em sua pequena taberna, quando eu gritei: Raimundinhooooooo!!! A festa foi grande.
Nós morávamos em uma casa quase em frente à dele, e, por conta disso, comecei a fazer-lhe algumas perguntas. Ele, então, me apontou um senhorzinho que estava sentado em um banco, em frente à taberna, dizendo-me que ele era a pessoa que havia comprado nossa casa. Conversa vai e vem, o generoso senhor me perguntou se eu queria ir ver a casa, e eu não pensei duas vezes para aceitar o convite. Não tenho como descrever a emoção que senti, e não deu para segurar as lágrimas. Havia 41 anos que eu não botava os pés ali, desde quando nos mudamos, eu com 15 anos. A cada passo que eu dava o coração apertava. Tudo continuava exatamente do jeito como havíamos deixado, à exceção da cerâmica dos quartos dos meus velhos e do primeiro quarto, que, por sinal, era onde eu dormia, e do estado de deterioração da velha casa. Fomos até o quintal e fiz uma viagem ao passado, à minha infância querida. Passou um filme na minha cabeça: aquele quintal tem muitas doces histórias pra contar de nossas vidas!! Enfim, terminou a minha visita tão inesperada, que me deixou em transe e êxtase ao mesmo tempo.E, ao sair, passando pela minúscula sala de estar, foi como se ouvisse os Beatles na vitrola, e eu, mais minha amiga Grace (Maria Célia Penafort Pacheco), por volta dos 10 anos, dançando seus hits. Aquela casa está impregnada de nós...
Tomando a rua, vejo o velho Nonato, morador da casa que fica ao lado esquerdo, com os cotovelos debruçados sobre o muro. Eu o reconheci de pronto, apesar de não o ver desde que nos mudamos. Cheguei perto dele e disse-lhe: Nonato, eu duvido você dizer quem sou eu. Ele, porém, sem pestanejar, e com convicção, respondeu, soletrando enfaticamente: "N.O.K.A" (Noca, com "cê", era meu apelido de infância). E de novo a emoção bateu mais forte que o meu coração. Depois de conversarmos um pouco, ali, frente a frente, como se o tempo não tivesse passado, mas, da noite para o dia a neve tivesse desabado sobre nossas cabeças, fui embora com mil promessas de fazer novas visitas. Mas, quando me dirigia para o carro, observei que o portão da garagem da casa que fica à direita da nossa, estava entreaberta, denunciando que sua dona já acordara. Cheguei mais perto e vi uma senhorinha de cabelos cor de prata, sentada em uma cadeira. Era Ruth D'Urso, mãe de Itaúna, Iraúna, Índio, Ianaíra e... (esqueci o nome da outra filha). Outro espanto. A velha Ruth D'Urso, é, hoje, a imagem de sua Nona, de quem eu, quando criança, ouvi muitas histórias...Lágrimas também rolaram olhos abaixo quando ela perguntou sobre minha irmã Rosalba Campos, lembrando-se, na sequència, da amada e saudosa amiga Tereza Guerreiro, de quem ela me disse jamais esquecer.
Aí, percebi que a manhã avançava e resolvi partir, trazendo comigo os ecos do passado...
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016
DESPROFUNDIDADE
(RÔ Campos)
Quando me dei a ti
Mergulhei tão fundo,
E tudo o que era profundo
Tornou-se superfície.
Era o sol refletindo na água,
Como um espelho cristalino.
Tua aura refletiu na minh'alma,
E vi a beleza da pérola
Que no fundo do teu mar se escondia.
Mas vi também cores sem vida.
De repente, nem vermelho, nem violeta.
Tardes com muito sol,
Inclemente, queimando teu rosto.
Vi a cor da solidão que amargou a tua vida.
E tudo o que habitava as profundezas,
Ao mergulhar minh'alma, tão fundo,
Quase se afogando,
Tornou-se superfície.
E um tesouro emergiu da escuridão
Do fundo do mar da tua solidão,
Onde quase naufragou meu coração navegante.
sábado, 2 de janeiro de 2016
MINHA AMIGA É DILMAIS. EU SOU DILMENOS.
(RÔ Campos)
Acho que perdi uma amiga.
Uma amizade muito antiga.
Daquelas que a gente traz no coração.
Eu andava muito apressada.
E nem cheguei a perceber
Que ela não estava mais aqui.
Ontem foi que me dei conta.
Digitei o nome dela noFacebook.
Muitas outras apareceram.
Mas minha amiga querida
Não estava mais entre os amigos.
Conversei com os meus botões,
Para entender o que se passava.
E meus botões então disseram :
És anti - petista convicta.
E ela... militante do pt.
ESSA TAL FELICIDADE...
(RÔ Campos)
Eu vivia a procurar pela felicidade.
Achava que a vida era triste,
Pois nenhum amor verdadeiro eu encontrava.
Andei muitas léguas.
Atravessei mares turbulentos.
Às vezes quase naufraguei.
Um dia, quando pensei que havia encontrado
O amor da minha vida,
Percebi que era tudo mentira,
Pois o amor não era de verdade.
Quando desisti de procurar essa tal felicidade,
Nos braços e beijos de alguém,
Descobri que na verdade a felicidade
Não depende dos beijos e abraços de ninguém.
QUERO-QUERO
Este ano
Eu não quero
Saber de lero-lero
Vou botar
Meu bloco na rua
E fazer
Um quero-quero.
Este ano
Eu quero
Muita Saúde
E dinheiro no bolso
Pois com dinheiro
Eu compro tudo
Menos um amor verdadeiro
Mas a gente vive muito bem
Sem o ópio do amor alheio
Eu não quero
Saber de lero-lero
Vou botar
Meu bloco na rua
E fazer
Um quero-quero.
Este ano
Eu quero
Muita Saúde
E dinheiro no bolso
Pois com dinheiro
Eu compro tudo
Menos um amor verdadeiro
Mas a gente vive muito bem
Sem o ópio do amor alheio
O ANDARILHO
(RÔ Campos)
Setecentas e vinte horas. Amor sublime amor, gerado no seio da inocência, em meio às coincidências desta vida. Será?
Havia mais de três mil dias do primeiro voo que o libertaria do ninho que na verdade nunca o acolheu, dando Início a uma outra jornada pelos caminhos e descaminhos de novas estradas, tão antigas quanto a dor que o consumia.
Todo o vazio do passado aparentemente tinha ficado para trás. Até os rabiscos na parede da memória pareciam haver desaparecido. Era isso que eu imaginava que havia ocorrido.
Depois desse primeiro voo, tanto caminhou que esqueceu-se de que era dotado de asas. E, assim, com o tempo, desaprendeu a arte de voar...
Iniciou seu périplo pelas águas dos rios da Amazônia. Veio parar em Manaus, passando antes pela Guiana Francesa. Aqui, juntou-se a outros andantes. Havia dias em que dormia nas ruas; outros - quando conseguia algum dinheiro com suas mãos de artesão - pernoitava em alguma pensão no centro da cidade, quando aproveitava para banhar-se e dormir o sono dos justos. E ele me relatou que, apesar de tudo, ainda sonhava.
Eu o conheci em uma certa noite, que, coincidentemente, era dia de seu aniversário. Meu amigo Antônio já o conhecia há algum tempo. Ele juntou-se a nós na mesa de um bar tradicional no centro de Manaus.
Essa parte da história eu já contei em um outro texto, e não vou mais me aprofundar.
Isso foi no mês de setembro, dia 29 ou 30, eu já nem sei mais o certo. Na verdade, esse detalhe de somenos importância ficou nebuloso em minha memória.
Passaram-se os dias e eu não o tirava da cabeça. Queira mergulhar nesse mar desconhecido e intrigante, sem usar qualquer equipamento; não me importava com o risco de me afogar.
Pouco mais de um mês depois, novamente nos encontramos, casualmente, também em um desses bares da vida. Era madrugada. Mesa de bar tanto guarda alegrias quanto tristezas; tanto reúne lágrimas quanto gargalhadas. Era 20 de novembro, dia de meu aniversário e do meu renascimento, porque bem antes eu já havia morrido um pouco. Desde então se passaram as setecentas e vinte horas de meu mergulho. Tomei alguns sustos enquanto mergulhava; às vezes me parecia faltar oxigênio, mas eu não me afoguei. Ao reverso, eu o retirei do fundo do mar.
Depois de salvo, os céus lhe enviaram novas asas. Novamente alado, ele partiu, alçou voo... Eu fiquei de ir depois. Ao chegar em seu antigo ninho, ainda era o mesmo ninho, e novamente se perdeu. De novo teve suas asas partidas. Eu também não parti mais rumo ao encontro dele. Tive medo de mergulhar mais uma vez. Talvez já fosse tarde - pensei.
sexta-feira, 25 de dezembro de 2015
VERGONHA DE MIM
(RÔ Campos)
Finalmente a inspiração bateu. Acho que foi a garrafa de vinho que tomei durante a ceia na casa de minha mãe. Um vinho chileno, mas barato, é bem verdade; não chegou nem a R$ 20,00. O negócio estava entalado na minha garganta, e nada fluía. Agora, depois do vinho, desentalei...E chorei. Além do mais, antes de começar a escrever isto aqui, dei uma passeada pelo Face, e me deparei com várias postagens de amigos, com fotos de suas ceias fartas...E chorei de novo.
Antes de ontem, graças à minha irmã Renata Campos, que me colocou a par da situação, fui visitar uma família que vive em um rip-rap (nem sei se é assim que se escreve, mas acredito que vocês devem saber do que estou falando), entre a rua Tefé e o Igarapé do 40, no Japiim.
Essa família "vive" em um cubículo, algo em torno de vinte metros quadrados, divididos em dois compartimentos. No primeiro, encontramos uma geladeira queimada, uma máquina de lavar, um velho sofá, um fogão, uma tv, um varal com várias roupinhas de crianças secando e umas duas ou três redes enroladas e penduradas no armador, e ainda, no chão, um velho ventilador.
No compartimento de trás, um velho freezer, onde estão acondicionando os alimentos perecíveis, já que a geladeira está com defeito; para que não congelem (aqueles alimentos que não podem congelar), ligam e desligam o freezer. O restante não deu para eu visualizar, pois sequer coloquei os pés no primeiro compartimento, dada a minha angústia desde o primeiro momento.
Nesse cubículo, com um fedor insuportável, moram sete pessoas: a velha vó (que cuida das crianças e, para sobreviver, além de contar com o Bolsa Família, no total de R$ 212,00, lava roupa para fora), a mãe, que vive drogada,e provavelmente encontra-se grávida, e cinco crianças entre 1 e 12 anos, sendo dois meninos e três meninas. A menina mais nova, com cerca de 4 anos, desnutrida, contam-se as costelas. Perdeu o "leite do meu filho" porque a mãe não levou para pesar. A vó, de Parintins, me contou que veio parar aqui em Manaus há 5 anos, quando precisou trazer um filho para se tratar do coração, mas que veio a óbito, com cerca de 9 anos, vítima de infarte, ali mesmo (me apontando o lugar com o indicador). Depois, um outro filho, desgostoso por haver sido traído pela mulher, matou-se.
Continuando a conversa, a vó me falou que os outros seus filhos, que moram em Parintins, vivem revoltados com essa situação, e querem porque querem levá-la de volta, com o que ela não concorda. Disse-me que lá é tudo muito mais difícil, e que aqui ninguém passa fome; que quando não tem o que comer pede algum dinheiro emprestado e compra ovos ou salsicha; que não gosta de dar salsicha para as crianças, mas, muitas vezes, não tem outro jeito. No final, sentencia: não posso abandonar essas crianças.
Todos os dias é a velha vó que leva as crianças para a escola e vai buscá-las. Confidenciou-me que as crianças não podem parar de estudar, nem faltar, senão o Bolsa Família é suspenso.
Para morar naquele cubículo horroroso, com fedor insuportável, paga de aluguel R$ 270,00 por mês.
Antes de ir até lá, passei no supermercado com minha secretária, e fiz algumas compras. Eu ainda não sabia qual era a real situação, mas pensei: vou levar um monte de besteira, afinal de contas, é Natal, e criança lá quer saber de outra coisa, seja lá quem for a criança. E compramos bolo, biscoitos, panetone, chocolates, refrigerantes, sucos da Kapo, Itambezinho em caixa, uva passa, leite em pó, macarrão, queijo ralado etc. E foi uma festa!!!
Saí de lá com a certeza de que eu não estou com nada, não sei de nada, não sou ninguém. E que, se existe uma guerreira, é essa vó. Senti vergonha de mim.
Pensei: Freud estava certo (eu outrora, quando cheguei a fazer alguns módulos de Psicanálise, em pós-graduação, discordara veementemente disso). Os pobres, os miseravelmente pobres, não são analisáveis. Como realmente analisar alguém que luta para sobreviver? Como alguém que diuturnamente vive a se debater no fogo da miséria vai se perder nas teias de problemas existenciais, ou em razão de amores perdidos, ou, ainda, em sonhos desenfreados de consumo???
E, como disse meu filho Éric, o que esperar de tudo aquilo ali? Que horizonte existe para aquelas crianças? O que resta a elas, senão a prostituição, as drogas, o mundo do crime? E, assim como aquela família, quantas outras semelhantes existem aqui, no Brasil, no resto do mundo?
E, novamente, senti vergonha de mim. Senti vergonha dos meus problemas, dos meus desejos, das minhas aflições, dos meus anseios. Senti vergonha de me estressar com a conta de luz, que passa dos mil reais mensais, com a tv do meu quarto que queimou há 1 ano e que não pude ainda comprar outra, para assistir ao jornal e às novelas sossegada (o falatório é grande, idem a zoada, na saleta onde está a outra tv), com o velho split que já não refrigera o meu quarto como eu gostaria,com a justiça lenta, morosa, o processo que anda a passos de cágado, cuja execução não consigo finalizar para receber os créditos do meu cliente e, também, meus honorários, dos quais vivo exclusivamente, pois não tenho outra fonte de renda, com minhas dívidas que não consigo liquidar, com a viagem que planejo e não pude fazer até hoje, a casa desbotada que não pude ainda pintar. Senti vergonha da humanidade. Mas nós não passamos mesmo disso: somos humanos, demasiadamente humanos.
E tomei uma decisão: vou adotar aquela família. Vou tentar dar uma luz àquelas crianças e àquela velha avó, guerreira, mas certamente cansada. E crente, apesar de tudo.Vou reunir uns 10 amigos, para, juntos, adotarmos aquela família. Certamente será pouco para cada um. Mas a reunião de todos representará muito para aquela família. E com certeza estaremos abrindo horizontes para aquelas 5 crianças...E a 6ª já está a caminho.
E sei dizer mais uma coisa a todos vocês: nunca mais serei a mesma pessoa. Mudarei para melhor, é claro.
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