quinta-feira, 17 de julho de 2014

LUA DE SEGUNDA



(RÔ Campos)

Lua linda no céu de segunda·
Deusa vestida de branco,
Deitada em lençol de cetim crivado de brilhante:
Todo mundo queria vê-la, ali, estonteante,
No céu de julho, lua linda,
Lua cheia de luz.

Lua que me fez querer saber
Por que o amor é assim,
Às vezes dormente,
Outras vezes, de repente·

Lua linda no céu de segunda,
Crivado de brilhante·
E eu a me lembrar de quando o amor adormeceu
Um sono que ainda me parece eterno,
Ou quiçá desperte numa outra estação.

Lua linda, de uma noite de segunda,
Num dia qualquer de verão·
Que vem e me diz que o amor não tem tempo nem pátria,
Como a lua linda de segunda
No céu crivado de brilhante:
Lua linda, lua cheia de luz,
Que é de todos e não é de ninguém·

COLAPSO

(RÔ Campos)

Um coração cheio de vielas, artérias, veias, feito teias,
Pulsa e pulsa lentamente,
E hora outra acelera de repente·

Quer sair, fugir, sem saber pra onde,
Dessa prisão em que às vezes se esconde,
Sob pressão que sobe e cai e volta e vai:

Colapso mitral!

O sangue veloz, louco feroz,
Estrangulando a minha veia volta e meia·
Eis-me aqui, agora, coração,
Cansado, pálido,
Partido, necrosado,
Latifúndio improdutivo,
Terra de ninguém,
Loteado ao léu
Sob o imenso céu que nos cobre,
Prometido aos incautos,
Crentes, inocentes úteis·
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VIRANDO DO AVESSO

RÔ Campos)

Você me fez um convite·
Estava, assim, tão decidido,
Como se a minha vida fosse triste,
Alguém à procura de um Cristo,
Em busca do paraíso perdido·

Você me chamou e me disse
Como seria bom se eu me convertesse;
Eu, então, lhe respondi:
Eis uma grande ideia,
Eu me converto·
Vou me deixar,
Vou me esquecer,
Vou me entregar,
Vou me virar do avesso·

ABSTRAÇÕES


(RÔ Campos)

Era noite;
Fui ao quintal;
Estava claro.
Olhei para o céu;
Vi a grande lua no alto,
Que também riscava o chão.

Me perguntei sobre tanta beleza.
E essa feiura que teima, obstinada,
Em muitos corações que queimam
Nas fogueiras da vaidade.

E também sobre o amor
E a dor...
Os sonhos e a realidade.
A razão e o coração.
E a intrusa saudade
Que, às vezes, sem querer,
É como o sal que dá sabor.
E outras tantas vezes abusa,
De um quase direito de nos fazer sofrer.

Ainda contida em minhas abstrações,
Com os olhos voltados para o céu,
Me pus a perguntar à Gaia e Urano
(Não sem lembrar de Palas Atena e Ares)
Sobre este imenso mundo de deuses inventados,
E de homens perdidos nos labirintos traçados
Entre a guerra e a paz
Que Tolstói muito já nos disse...

E perguntei também a Urano:
- Onde é que a lua se esconde
Quando paira a escuridão?

E perguntei também a Gaia:
- O que seria de nós se não fosse a luz?

quinta-feira, 10 de julho de 2014

DE QUE É FEITA A VIDA


(RÔ Campos)

Depois que a cheia vazar
A poeira sentar
A dor diminuir
A tristeza passar
Eu volto pra vida
E deixo a vida me levar
(Pela porta que nunca fecho)
Até chegar a próxima agonia.

É nessa onda perigosa que eu surfo
E nesse rio turbulento que navego
E assim eu vou...vivendo
Como o samba, que ri e que chora
E a noite que derrama em silêncio
No orvalho da madrugada
As lágrimas das almas aflitas
Que queimam nas fagulhas dos incêndios.

Porque a vida é feita disso:
De alegrias e tristezas
Cair e levantar
Sonhos e incertezas
Calmarias e vertigens.
De "quem sabe ?"
Ou talvez.
E da solidão de quem se vê sozinho

segunda-feira, 7 de julho de 2014

DEPOIS QUE O TEMPO PASSOU


(RÔ Campos)
Já faz muito tempo, houve um tempo em que a gente achava que o tempo nunca passaria. E pedíamos a ele que corresse. Queríamos crescer, virar gente grande, fumar um cigarro, tomar um drinque.
Aí, então, o tempo foi passando. E, como tínhamos pressa, não percebíamos que o tempo se ia, levando com ele, a cada por-do-sol, a cada lua que dormia, um pedacinho de nós.
E, agora, depois que o tempo passou, eu vivo a pensar no sol e na lua, que muitas vezes deixei de olhar, com tanta pressa que eu tinha, de ver o tempo passar...
Bate um desejo de botar as mochilas nas costas, seguir por aí, sem qualquer direção, ganhar o mundo. Mas, de repente, eu me lembro que os sonhos também batem as pernas. E que os sonhos de menina são como fios de cabelo, agora brancos, que, com o tempo, caem e perdem a cor...

sábado, 28 de junho de 2014

CADA DIA


(RÔ Campos)

Tá tão difícil···
A estrada é longa,
Mas a vida é curta·
A barra tá pesada·
Ouvi alguém falar:
Salde logo as suas pendências,
Porque, de repente, tudo muda·
Até as pedras trocam de lugar·
Tem doido mudando o curso do rio·
Tem maluco querendo se matar·

E eu tenho me rebolado,
Virado-me do avesso·
E daqui a pouco estou de frente·
Encaro a noite triste,
O dia nada claro·
E daqui a pouco a nuvem escura passa·
São dias que são assim:
Às vezes eu já nem sei mais de mim·
Mas quando nasce um novo dia,
Eu me lembro que ainda ontem eu também morri·
E se agora eu abro os olhos e vejo o sol,
É porque hoje também eu renasci·
E assim, eu vou-me embora estrada afora·
Vou-me hoje para voltar amanhã,
Como a lua e o sol de cada dia·
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