sábado, 26 de outubro de 2013

BRINCAR DE AMAR



BRINCAR DE AMAR
(RÔ Campos)

Por que deixamos passar tanto tempo?
Já não somos tão jovens
Já não temos o tempo
Já não temos nem tempo
De brincar de viver.

Por que desistimos da gente
Dos dias de vinho e de licor
Das noites altas, do carinho
Desistimos até mesmo de fazer amor?

Por que vieste me ver ontem, assim, de repente
Com tanto brilho nos olhos e cheio de alegria?


Por que entraste de novo na minha vida?
Por que saíste em seguida?
Por que não voltas, mesmo mentindo?
Pra gente brincar de amar,
Pra gente brincar de viver.

Por que não voltas,  mesmo fingindo
Dizendo que  ainda me queres
Pra gente brincar de amar 
Pra gente brincar  de viver.

O "EU" DE CADA UM


(RÔ Campos-Sônya Prazeres)

Nenhuma flor é frieza
Nenhuma dor é em vão
Nem todo silêncio se cala
Nem todo grito é multidão.

Nenhuma mentira é bem-vinda
Nenhuma paixão é amor
Nem toda saudade é dorida
Nem toda verdade é doutor.

Nenhum céu é o mesmo azul
Nenhum sol é tal e qual
Nenhuma lua é a da minha rua
Universo é o de cada um.

sábado, 12 de outubro de 2013

FINGIR


(RÔ Campos)

Tento fingir que te esqueci
Só assim é possível viver:
Mentindo para os outros
Te escondendo de mim.

Tento fingir que já não choro
E culpo a poeira pelo inchaço nos olhos.
Tento fingir que já não sofro
E pinto um sorriso amarelo no canto da boca.

Tento fingir que ainda sou alguém
Que acredito, um dia vou ser feliz.
No silêncio da noite derramo a minha dor
De dia espalho a alegria que invento.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

O SOL E A LUA


(RÔ Campos)

A lua e eu. Eu e a lua
Eu namoro ela declaradamente
Ela namora o sol às escondida.
Os dois, ouvi dizer, nunca se viam
Mas, vou contar um segredo:
Outro dia, do outro lado da rua
Eu juro, olhei pro céu
E vi o sol cara a cara com a lua.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

VELAS AO VENTO


VELAS AO VENTO

(RÔ Campos)

E ninguém pode entender
O que há no coração de alguém
E quem vai tentar saber
Sem enxergar além?

Os olhos são um mar
O peito um imenso cais
Quem há de ancorar
Sem nem temer jamais?

As dores do amor
São quais punhais que ferem
Mas quem o crucificou
Deixando marcas na pele?

E vejo lágrimas, a peste
Uma cruz que se carrega
Só o amor - não há quem negue
Solta ao mar o barco, ao vento a vela.

A ESCALADA DA VIOLÊNCIA E A PERDA DA DELICADEZA


(RÔ Campos)

Ontem à noite eu senti medo. Estava em frente à minha casa, por volta das sete da noite, conversando com minha irmã Rosana, que estava de saída, quando vimos uma moto subindo a rua; tratamos de entrar imediatamente, e só voltamos quando tivemos certeza de que a moto havia desaparecido. Continuamos a conversa, quando percebemos dois rapazes magros, um deles sem camisa, descendo a rua. Corremos para dentro, eu, agoniada, sem conseguir fazer funcionar o controle remoto do portão. Meu coração ficou na boca, com medo de que, acaso fossem bandidos, entrassem na minha garagem antes que o portão baixasse totalmente.

Não são raros os dias em que temos vivido amedrontados, assustados com tanta violência em nossa cidade, tanto faz dentro de casa ou no meio do mundo. Volta e meia são os amigos ou desconhecidos brutalmente assassinados, como no último final de semana, a querida Michelle Freire, e, ontem, a família Xavier, em pleno recesso de seu lar.

Temos medo de abrir o portão para atender a um pedinte à procura de comida, de roupa ou de qualquer outra ajuda. Já não abrimos mais a nossa porta para qualquer um, temos receio até de socorrer alguém que, muitas vezes, precisa realmente de ajuda, porque ninguém traz identificação em sua face. O mais lamentável de tudo isso, além das perdas irreparáveis, dos sonhos cerceados, das vidas adulteradas e abreviadas, é que por força dessas circunstâncias, nós, sem querermos, estamos pouco a pouco perdendo a delicadeza.

FRAGMENTOS DE MEU TEXTO "CONFISSÕES"


RÔ Campos

"Vivíamos aqueles idos tempos, e eu jurava que te sabia. Ninguém tirava de minha cabeça que eu conhecia a tua cor predileta, o prato preferido, o que te fazia feliz, e tudo o que poderia causar-te mágoa. Eu supunha saber até os sonhos que ainda não havias sonhado. E, assim, os anos se foram...Eu continuei jurando que te sabia. Sempre estavas aqui, quando mais te necessitava, mesmo quando não te chamava. Cheguei a pensar que também me amavas, com a mesma força, a mesma medida e a mesma intensidade. Confesso-te que me enganei. Não, nem tu mesma sabias que a nossa aliança não era de verdade, não naqueles dias. O elo foi quebrado, e eu fiquei durante muito tempo tentando colar os cacos dos meus cristais, consertar os meus navios, com uma tristeza profunda no meu coração, exatamente porque o elo havia se partido, escancarando a fraqueza de todos nós. É bem verdade que não eras aos meus olhos, por exemplo, uma rocha, mas uma jóia preciosa, isto, sim. Uma jóia que, então, perdera o seu valor. Depois que consertei os meus navios, nossos destinos tomaram rumos diversos. Naveguei por outros mares, descobri novos amigos, novos mundos, vivi coisas inusitadas, e vez em quando lembrava de ti, que sempre estivera ao meu lado me vigiando com os olhos de Moscou, e me lembrando de coisas com as quais não me importava. Nessas minhas andanças, compreendi tuas razões. Descobri que nós, as mulheres, somos mesmo assim quando estamos amando (aliás, faz algum tempo que o amor não mora mais em mim...). Brigamos com o mundo, tornamo-nos cegas, trocamos tudo num segundo, mesmo que seja bom, pelo gostinho amargo de um "amor" que maltrata. E insistimos. Acreditamos que vamos conseguir vencer, mudar o outro, quando, na realidade, tudo o que precisamos é mudar o rumo do navio que transporta o nosso destino, alçar velas, dobrar à direita ou à esquerda, buscar um atalho, vencer a tempestade, ou, então, deixar que o vento nos leve para longe, seguir em frente, sem voltar os olhos para trás, porque o passado é um baú cheio de ossos e restos de cabelo.
Acho que foi na Primavera que nos reencontramos. Tu já estavas refeita e vivias um novo amor, que também era velho.Ainda o vives até hoje...e parece eterno.
Eu...faz algum tempo vivo livre, sem amar. O mar é calmo e o céu azul e cheio de estrelas. É muito estranho para mim, que tanto já amei, - amores esses que aprisionam - viver num mundo livre, coração solto, sem amar ninguém. É uma espécie de cumprimento de dura pena em liberdade. E tenho rogado a Deus que me condene a voltar a crer que amores são possíveis".