domingo, 15 de julho de 2012

O HOMEM (RÔ Campos)

Homens são tantos...poucos os machos. Às vezes me acho em alguns deles. Outras vezes, me perco. Homens são homens. Machos são homens. Mas nem todo homem é macho. Homem, pra ser homem, tem de ser macho. Macho não tem medo de amar, nunca foge do amor, não se arma para ir à guerra. Macho entra na guerra para à guerra por fim. Macho é educado, fino, abre a porta pra mulher entrar, puxa a cadeira pra mulher sentar, manda-lhe flores, recados pelo celular. Macho que é macho segura a mão da mulher, protege-a, por mais forte que seja a mulher. Mulher é mulher. Forte como o cinzel, frágil como uma flor. Mulher alguma jamais foi feliz vivendo sem laços, abraços, sorrisos, beijos, do homem de verdade, amado, um macho. Homens são tantos...poucos os machos. Um macho que também sabe a tristeza da mulher quando triste está, mas inda assim tem sempre um sorriso pra lhe dar. Um macho que se emociona, que chora, e não tem vergonha de chorar. Porque, disse o poeta, o homem também chora, também deseja colo, palavras amenas. Um macho que sabe a fraqueza dos fortes, porque não há fortaleza sem quedas. Porque não se ergue um muro sem a argamassa e o tijolo. Um completa o outro e erige-se o edifício, a morada.

QUANTO TEMPO! (RÔ Campos)

Cadê você? Eu nunca mais o vi. Temos corrido demais, e não há mais tempo para as coisas do coração. Andamos de mãos dadas com a velocidade. Corremos em busca de tudo, e nos deparamos sempre com o vazio, com o nada. Deixamos tudo para trás. Já nem sabemos fazer um afago. Ah, quanto tempo, quanto tempo! O cheiro da omelete. O café quentinho depois do almoço. As cadeiras na calçada. Os risos, as piadas. Os inesquecíveis brigadeiros. O churrasco, o papo com os amigos, uma loira gelada. Os passeios pela estrada. As sessões de Cinema em Casa. Quanto tempo! Quanto tempo! Cerro os olhos ... e já é dia. Toco as cortinas ... e já é hoje. Mas já passou. Amanhã ... o amanhã chegou. Ainda não li aquele romance de Guimarães Rosa, que ganhei de presente no último verão e esqueci no criado-mudo. Já saiu de cartaz o filme que estourou bilheterias : “O Último Romântico”. O Teatro Casa das Artes ruiu. Minha banda preferida veio ao Brasil. Não soube, não vi. Ainda não conheci minha sobrinha-neta. Tantas pessoas lindas encantaram-se. (Guimarães Rosa disse que as pessoas não morrem; elas se encantam). Fernando Pessoa? “Morrer é não ser mais visto”. Quanta coisa vivi. E quanta coisa deixei passar. Conheci Don Juans, homens bem intencionados e mandriões. Mentirosos, cafajestes, finórios, ingênuos. Soube de padres, bispos, políticos e outras espécies tais. Colei grau e me pós-graduei em zoologia. Aprendi um pouco sobre e com os animais. Quando criança, cri. Cresci crendo, Descri. Hoje creio muito mais. (Deus está além dessa divindade perversa, diabólica, punidora, arquitetada pelo homem). Minha crença em Deus caminha com o Darwinismo. Acredito que a natureza é uma Deusa. Grandes são os seus segredos. Profundos os seus mistérios. Nunca mais abracei meus filhos, beijei seus rostos. Nunca mais eles me elogiaram. As portas trancadas nos separam. Receio o futuro.. Tenho medo da frieza , do desprezo, do deboche. Ontem fui tudo, e hoje não sou mais nada. A velhice é inevitável para quem não morreu . E, então, perdemos a força. O olhar é cansado. As tempestades pesam como chumbo. Ventania! Quanto tempo! Quanto tempo! Minha mãe cosendo nossos vestidos pro Natal. As deliciosas rabanadas. O bolo simples. O brinquedo escondido debaixo da cama. A bênção na hora de deitar. Mama me desejando “boa sorte”. Saudades! Saudades! De correr no imenso quintal. De jogar bola de gude. E de tantas outras brincadeiras de criança... De pisar a terra. Dançar no bumbá Luz de Guerra. Quanto tempo! Quanto tempo! Nunca mais sentei num banco de praça. Nem levei as crianças ao Circo. Não sei quem é meu vizinho. Onde inauguraram o novo parque. Se é que há um novo parque. Quanto tempo! Quanto tempo! O ontem está tão perto e tão longe. Ando aceleradamente em busca do amanhã. Não existe mais tempo pra vida.  

terça-feira, 3 de julho de 2012

LUNA

(RÔ Campos)

Quisera ser como tu
Sair nua, na noite
Sem vergonha, sem pudor.

Quisera ser como tu
Me cobrir, me recolher
E não ter vergonha de voltar.

Quisera ser como tu
E, em mim, cada noite Ser como um amanhecer.
Quisera ser como tu
Alumiar, ter luz própria
E não temer a escuridão.

Quisera ser como tu
Sedutora, instigante, pura, nua
Sem me prostituir.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

CODIGO DA VIDA

(RÔ Campos)

É preciso ser feliz
Jogar fora, na lixeira
Essa droga de infelicidade
Quase um lixo nuclear
Uma bomba atômica
Capaz de nos explodir
Minar o coração.
Matar.

Não adianta viver, assim
Sem qualquer sentido
Sem saber pra onde ir
Mas, vamos convir
Que não tem valor algum
Uma vida assim, qual um robô
Ou um programa de computador.

É preciso amar a vida
Pois só quem ama, vive
E aquele que só é desamor
Nada sabe a respeito da vida
Nem acerca do amor
Porque só tem valor a vida
Uma vida feita de amor.

ALUMIAÇÃO

(RÔ Campos)

Lá se vai mais uma tarde
E o Rei Sol junto com ela
É o dia que se extingue, deita
E a noite que se avizinha.

O sol com ele leva a luz do dia
Mas a noite faz surguir a lua
Que vem lá detrás dos montes
Alumiando nossos corações.

E lá no céu tão grande, infindo
Surgem as Constelações
Com suas estrelas vibrantes, candentes
Fazendo arder o coração da gente.

Noite baixa, noite alta
No meu céu tudo é clarão
Não há a escuridão dos outros...céus
Cheio de estrelas em sua imensidão.

Ouço o sussurro da noite
Miro as estrelas dançando
Penso em tantas vidas que nunca viram
O Sol se pondo, a lua surgindo.

IGARAPÉS, CANOAS, BILHAS, PÚCAROS...RECORDAÇÕES

Sexta-feira passada deixei um casal amigo no bairro da Glória, e fiz o percurso de volta passando pela velha ponte de São Raimundo, e muitas recordações me invadiram a mente. Primeiro, porque meu saudoso pai trabalhou, como operário, em sua construção. Segundo, porque o igarapé de São Raimundo, que corre sob dita ponte, compõe com beleza indizível toda a minha infância, até meus quinze anos, quando nos mudamos da rua Boa Sorte, a qual finaliza exatamente no igarapé. Não me lembro de, na minha infância, tê-lo visto tão cheio como agora, quase pegando a ponte. Nossa casa ficava entre 200 a 300 metros de distância do igarapé, onde íamos nos banhar e passear de canoa, quando a água faltava em nossas torneiras (o que era corriqueiro), além de encher as latas dágua e carregá-las sobre nossas cabecinhas. Era a água para cozinhar e beber, que ia para a bilha, substituída mais adiante pelo púcaro ou pote, depois pelo filtro à vela. Hoje, lamentavelmente, se aquela água servir para aguar as plantas, é muito. Nosso igarapé, outrora de águas cristalinas, está totalmente poluído. O tão cantado e decantado PROSAMIM, serviu pra tudo, menos para saneamento dos nossos igarapés, que, ao contrário, foram aprisionados em canos. O fim da picada acontecerá se eles fizerem sob a velha ponte o mesmo crime que cometeram no igarapé de Manaus e sob a outra ponte da Sete de Setembro: lançar aterro, matando o igarapé de São Raimundo para construírem aqueles blocos de apartamentos, que já foram, inclusive, veementemente condenados por quem entende do assunto, vez que não guardam qualquer relação com as peculiaridades de nossa região. Se fizerem isso com o igarapé de São Raimundo, será mais uma relíquia de minha infância que se irá pelo esgoto, como o zoológico da Matriz, os balneários do Parque Dez, da Ponte da Bolívia e do Tarumã pequeno, a praça que ficava na confluência da Constantino Nery com o Boulevard Amazonas, onde costumávamos ir à tardinha, o balneário do Grupo Daou, lá pelas bandas do Japiim (acredito que seja por ali onde está construído o Studio 5, que, a propósito, pertence ao grupo Daou), onde fazíamos piqueniques memoráveis (meu tio Djalma Campos, irmão de meu pai, trabalhou durante muitos anos no grupo, gerenciando, inclusive, a Lisbonense. Alguém aí lembra dela???), o Cine Guarany, a Divina Providência (na Ramos Ferreira com Tapajós, hoje uma das unidades da Uninorte, que loteou e descaracterizou criminosamente o centro de Manaus), o cine Popular (o famoso Cine Puga), na rua Silva Ramos, atualmente mais uma unidade da Casa do Eletricista etc.etc.etc.